Cultura: uma fábrica de rebeldes e desequilibrados

Jovens britânicos protestaram, sábado passado, contra o jornal Daily Mail, que publicou uma reportagem sobre o “cult emo ao suicídio“. Um exemplo seria a morte de Hannah Bond, 13. De tanto escutar as canções do grupo My Chemical Romance, teria se tornado obcecada com a morte.

Os jovens cantaram músicas do My Chemical Romance e alguns usavam o traje da HQ V de Vendetta. Acima, vídeo do protesto.

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Acho temerário um jornal lido por mais de cinco milhões de pessoas fazer avaliações amplas a partir de exemplos específicos. É o jornalismo fazendo inferências perigosas. O mesmo ocorre com os jogos eletrônicos. Há quem diga que o videogame é uma péssima influência. Outros apontam para o oposto: eles teriam uma função de catarse, extravasar sentimentos negativos.

Não é novo associar jovens a perigo. O rock foi acolhido pela mesma cultura do medo. Entretanto, seria difícil imaginar que alguém decidiu acabar com sua vida por causa de canções. Acredito que uma solução definitiva como essa aponta para vários fatores. Mas nós procuramos bodes expiatórios. Assim, fica mais fácil lidar com o tema. Abordagens complexas demandam mais esforço de ação.

De toda forma, acredito que a maioria dos jovens não procura inspiração, mas escapismo ou conforto para esse período de mudanças. A arte traduz os anseios e dúvidas dessa fase: “alguém me entende”.

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Para uma mente perturbada, qualquer influência externa pode inspirar atos desequilibrados. O livro Apanhador no Campo de Centeio é um exemplo disso. É citado, inclusive, no filme Teoria da Conspiração.

Já o assassino Charles Manson aponta o álbum branco dos Beatles como inspiração para sua conduta. Manson foi fundador de um grupo que cometeu vários assassinatos, entre eles o da atriz Sharon Tate, mulher do cineasta Roman Polanski. Ficará preso até o fim dos seus dias.

Jornalismo cultural

Certa vez, o ombudsman da Folha publicou em sua coluna a opinião de vários ex-editores da Ilustrada (e também do atual) sobre como eles acham que deva ser a cobertura cultural num jornal diário e impresso.

O que foi dito: “a Ilustrada envelheceu”; “precisa ser novidadeira, assertiva e atrevida, atender expectativas, mas saber surpreender e incomodar, dosar serviço com reportagem investigativa e ser campo fértil para idéias novas”; “ser cada vez mais crítico ao mercado, fugir das armadilhas do deslumbramento, da superficialidade e da ingenuidade, as pragas do jornalismo cultural”; “submeter as políticas culturais públicas e o marketing da indústria de entretenimento à investigação jornalística; aprimorar os serviços; recompor o valor intelectual e polêmico da crítica; retomar o entusiasmo pelo debate, o gosto da provocação e o prazer das rupturas e das descobertas”; A Ilustrada é filha de período em que o debate cultural era mais coletivo e concentrado em poucos lugares; (…) Talvez a tarefa principal seja atar as pontas dispersas”; “a tendência é abraçar essa ‘cauda longa’. O diferencial será a capacidade de pinçar nessa ‘cauda longa’ as manifestações mais originais, capazes de formar, elas mesmas, suas próprias ‘caudas’. Para isso, apostar naquilo que é totalmente inusitado”; “nem é dada a palavra ao artista, mas sim ao crítico, ao colunista, ao articulista, sem que haja tampouco o confronto das idéias. Que seja dada a palavra aos criadores”; “análise, interpretação e crítica. A Ilustrada do futuro deveria se basear nesse tripé. A cereja no bolo seriam reportagens exclusivas. E uma medida a ser tomada ontem: jogar fora tabelas e roteiros”; “a vontade de eterna juventude (valorizar o novo pelo novo, sem pôr em xeque sua consistência) pode ter ficado anacrônica. Para satisfazer e manter fiel público mais maduro será necessário esforço mais amplo de aprofundar informação e opinião.”