Entrevista não é disputa; tampouco julgamento
Não sou católico. Na verdade, me aproximo mais da idéia defendida pela pesquisadora sobre religião Karen Armstrong, que defende que a experiência religiosa é algo pessoal. Ademais, espiritualidade é diferente de religião. Alguém já afirmou que a arte é a contestação que só a vida não é o suficiente. A fé pode ter o mesmo papel para algumas pessoas.
Falo sobre o tema porque vi uma entrevista (exibida no canal pago GNT) que Marília Gabriela fez com o Padre Fábio de Melo, um dos destaques midiáticos da Igreja católica. Foram duas surpresas, uma boa e outra negativa.
Não sou seu fã, tampouco acompanho sua obra. Todavia, Melo prega um discurso que lembra bastante algo que Armstrong julga ser o alicerce da experiência espiritual: a compaixão.
Melo, inclusive, faz ponderações distintas ao que encontramos por aí. Em certo momento, falou que o discurso religioso é perigoso, pode servir a fins negativos. Acrescentou que também discorda do sentimento de tribo que alguns cultivam na igreja, de achar que sua religião é melhor que a dos outros.
Mesmo diante de perguntas difíceis, se mostrou acessível, dizendo entender o pensamento alheio. A mesma postura ponderada não foi vista em Marília. Apesar de apreciar seu trabalho, aqui a entrevista soou mais como uma acareação policial. Em determinado momento, ela chegou a dizer “Você tem de admitir que…”
Não se trata de personalizar o problema em Marília Gabriela, essa entrevista me fez refletir sobre esse tipo de conduta. Para mim, entrevista é deixar o convidado à vontade para que o resultado soe como uma conversa. Daí esse tipo de programa ser chamado de talk show.
Não que se deva deixar de fazer perguntas polêmicas; apenas acredito que é um caminho tortuoso buscar deliberadamente o conflito. Acho ruim quando a entrevista soa como um julgamento; uma disputa por definir quem está com a razão (claro, nesse cenário é importante que o outro seja o nítido perdedor) ou quando se busca incessantemente a incoerência no discurso alheio.
Para piorar, há quem tenha posturas distintas. Quando se trata de um artista renomado, a entrevista soa como bajulação, poucas perguntas áridas são feitas (se é que são). Em outros casos, o convidado, muitas vezes humilde, serve de escada para a piada. Transforma-se a vida de alguém em algo trivial, chacota.
De toda forma, Fábio de Melo mostrou-se calmo, sereno. Divertido, até. Algumas de suas respostas poderiam resultar facilmente em vários momentos Keyboard Cat. Num deles, ao ser questionado por Marília sobre o que acontece quando morremos, ele respondeu que ela estava fazendo uma pergunta complicada pois ele não havia morrido.
Padre Fábio de Melo terminou o programa dizendo “Não tenho tempo, pois a alegria me consome”.
Recomendo a todos a leitura de A Escada Espiral, de Karen Armstrong. Vale sobretudo pela segunda metade da obra. Em tempos polarizados como os atuais, em que há tantas certezas perigosas (Fábio de Melo disse, inclusive, que tem dúvidas), um discurso focado na compaixão soa ainda mais relevante.
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)



