Quem contribui nos projetos colaborativos online?

A internet é uma ferramenta para acessar informação, isso é óbvio, mas é uma ferramenta muito mais importante para conectar uns aos outros. E a variedade de formas de pensar e viver está apenas começando a crescer porque, de repente, a idéia de nicho – você achava que era a única pessoa do mundo que gostava de determinada coisa ou que fazia uma atividade de um jeito diferente – pode ser expressa socialmente.

Clay Shirky, jornalista/acadêmico e autor do livro Here Comes Everybody (ainda não publicado no Brasil), em entrevista ao Link.

Para saber mais sobre micromídia, esse deslocamento da cultura de massa para os nichos, algo que cada vez mais desperta meu interesse, é bom conferir o trabalho de Umair Haque, The New Economics of Media. Haque influenciou muita gente, como Chris Anderson, autor de Cauda Longa.

O subtítulo do livro de Shirky é “O poder de organizar sem organizações”. Já falei sobre crowdsourcing por aqui. Prefiro a definição “terceirizar para as multidões”.

Em projetos participativos, em muitos casos, são percebidos colaboradores mais intensos, e outros que basicamente acompanham a discussão. É possível notar porcentagens que mostram participantes bem mais engajados que os demais. Uma teoria, a 90-9-1, estipula três pilares: audiência (90%), contribuintes esporádicos (9%) e criadores de conteúdo (1%).

Henry Jenkins, autor do livro Cultura da Convergência, acredita que em comunidades do conhecimento o indivíduo colabora com seu expertise pessoal para criar um conhecimento que dificilmente seria possível de ser desenvolvido de forma pessoal. Todavia, ele identifica a presença dos brain trusts, pessoas que sabem mais que as demais, definindo o que é relevante divulgar para a coletividade.

No Twitter, por exemplo, 10% dos usuários respondem por mais de 90% do conteúdo publicado. Os dados são de um estudo da Harvard Business School.

Na Wikipédia,  mais de 50% do trabalho é feito por apenas 0,7% dos usuários. E os 2% mais ativos fizeram mais de 70% das edições.

Recentemente, a Wikipédia passou a adotar um  sistema de revisão dos verbetes, até para evitar o vandalismo online, discrepância de informações etc. Editores mais antigos e com alta reputação seriam os responsáveis pela triagem. Essa mediação gera desgaste, debate sobre as escolhas feitas.

Essa característica seria reflexo de tanto tempo vivendo de acordo com a cultura de massa, de pessoas apenas recebendo informação (pull media)? Acredito que apenas isso não justificaria essa realidade. Até porque nem todas as pessoas que já participaram de projetos de educomunicação se tornaram profissionais nessa área.

Isso inviabiliza o conceito de inteligência coletiva, de Pierre Lévy? Acredito que não, apenas acrescenta novas camadas ao que o pensador francês considerou uma “utopia realizável”. Ademais, Lévy também vislumbrou uma fase de “aprendizagem”.

Além disso, uma contribuição ocasial pode acrescentar uma peça ao todo. O projeto Adote um parágrafo, que realiza traduções coletivas, é um exemplo.

A participação de novos agentes da comunicação, muitos deles sem experiência na indústria da informação, tende a aumentar. Todavia, não vejo um futuro tão trágico para os profissionais da comunicação (quando falo isso, repito, não me refiro apenas a jornalistas). Mesmo havendo oportunidade, há pessoas que, em relação a produção e divulgação de conteúdo não pessoal, ainda se portam como receptoras (abordo em outro texto a diferença entre audiência e comunidade). Claro, não são mais passivas no processo,tem a possibilidade de participar, dialogar com o comunicador, mas não almejam necessariamente manter publicações.

O ilustrador português Jorge Colombo, que criou uma capa para a prestigiada revista norte-americana New Yorker utilizando um iPhone, fez uma comparação interessante. Refere-se a arte, mas acho que se aplicada também à produção de conteúdo. Para ele, as novas tecnologias propiciam o surgimento de artistas amadores. “É um pouco como desporto: claro que são precisos atletas profissionais, campeões, mas em cada fim de semana há gente a andar de bicicleta, a nadar ou a jogar futebol, sem ter ambições olímpicas. Um pouco de expressão artística é tão útil para qualquer pessoa como uma hora no ginário” afirmou Colombo, em entrevista à revista Mac+  37.

Steve Rubel, diretor de insights da Edelman Digital, defende uma diferenciação entre agregadores de conteúdo (como o Digg) e o trabalho de curadoria (pessoal ou coletiva; o Mahalo, por exemplo, seria uma comunidade de curadores). Esses últimos são especialistas, que fazem um trabalho de triagem do que é mais relevante. Para Rubel, curadores não são editores, já que essa última palavra remete a um espaço finito de divulgação. “A curadoria digital é o futuro da informação online”, prevê Rubel.

Pessoas procuram referências, especialistas em áreas específicas, não apenas na comunicação. Seth Godin, um dos grandes nomes do marketing digital, defende, no livro Tribes, que toda comunidade precisa de liderança.

Seria impossível revitalizar o homem renascentista, que sabe sobre diversos assuntos, dada a quantidade de informação existente atualmente. Mas podem existir especialistas em nichos específicos, que possuem a habilidade chamada “mente sintetizadora“. Em termos empresariais, fala-se que uma empresa terceriza o que não faz parte do seu core business (sua atividade principal).

As pessoas cultivam áreas de interesse, mas também se apropriam do conhecimento alheio em outras atividades, algo que uma pesquisa no Google nem sempre supre.

Ademais, há o componente da relação entre as pessoas. Para Peter Burke, autor do livro Uma história social do conhecimento: de Gutemberg a Diderot, as formas de sociabilidade tem influência sobre a distribuição e até mesmo sobre a produção do conhecimento.

Monetização das redes sociais

Falei num post anterior sobre o fato do Facebook ter atingido o equilíbrio financeiro recentemente. Não foi um caminho fácil. A rede social enfrentou problemas diversos com sua plataforma de anúncios contextualizados Beacon.

E como os sites de relacionamento estão monetizando sua atuação?

Bill Gurley analisa o assunto. Entre as táticas mais comuns,  aplicativos, anúncios personalizados e moedas e presentes virtuais.

Esses últimos recursos podem estar atrelados a jogos online. São oferecidos alguns produtos gratuitamente, e outros são obtidos mediante pagamento. No Facebook, Farmville (61 milhões de cadastrados) e Mafia Wars (25.8M) são os mais acessados.

Veja também:
O futuro da monetização das mídias sociais – 1
O futuro da monetização das mídias sociais – 2

O poder da influência das listas no Twitter

A criação de listas no Twitter se tornou outro artifício para agrupar informação de forma segmentada e acompanhar pessoas com interesses afins.

Para o blogueiro Robert Scoble, a ferramenta modificou como ele consegue informações e como interage com a comunidade tecnológica (ele recomenda algumas comunidades relacionadas a esse tema).

E como ocorre essa influência? O blog Skeptic Geek fez um estudo sobre o assunto com perfis de pessoas ligadas à área tecnológica (gráfico acima). Entre diversas ferramentas possíveis, como Twitterank, Twitter Grader, Twitterholic, Twinfluence, Twitalyzer, ele optou pela Klout. O resultado completo você confere aqui.

PS – Agradeço às pessoas que me incluiram nas suas listas.

Organizando e divulgando eventos via web 2.0

O Mashable criou um guia de como planejar e promover eventos com a mídia social. Pego algumas ideias e acrescento o meu “mojo”.

Para o planejamento, sugere utilizar wikis (PBworks seria o mais indicado), a dupla Google Calendar/Google Docs e o sistema de gestão Basecamp.

O primeiro passo da divulgação é selecionar alguns nomes especiais para receber o contato inicial. São os formadores de opinião, que podem agregar valor ao seu evento (jornalistas, blogueiros, Twitteiros, donos de comunidades em redes sociais etc.). Não esquecer das pessoas próximas – familares e amigos – que podem auxiliar na divulgação de forma engajada. Você pode convidar pessoas através de serviços como Anyvite e Eventbrite.

As redes sociais geralmente possuem recursos interessantes de agenda que você pode enviar para seus contatos (Facebook alert, por exemplo).

O Twitter é uma das ferramentas essenciais para “espalhar” seu evento. Não esqueça de criar uma hashtag sobre o assunto.

Você pode facilitar a divulgação disponibilizando wi-fi gratuito no evento. Ademais, pode fazer a transmissão ao vivo (Ustream). Não precisa ser de todo o evento, apenas das partes mais relevantes. Depois, pode colocar no YouTube os trechos mais interessantes. Publique as melhores fotos no Flckr.

Depois, monitore as opiniões e continue a conversa, ainda mais se visa promover outras edições. Para eventos menores, inicie a conversa, pergunte. Tente criar uma lista de contatos.

Minha vida como ativista cultural anda meio parada no momento, mas quando retomá-la tentarei aditivar a lista amiga (pessoas que disseram que estariam no evento, e por isso vão pagar menos). Acrescentaria que, se essas pessoas divulgassem o evento em redes sociais (Twitter, Fotolog – não esqueçam dele, festeiros adoram a ferramenta-, Orkut etc.) o preço do ingresso seria ainda mais em conta. Para isso, bastaria enviar a imagem do seu perfil do serviço web 2.0 com sua divulgação para os promotores do evento.  Mais que público, teria “sócios” engajados.

Outras sugestões: manter um blog, criar uma rede social específica (Ning) e perfis em diversas redes sociais (Facebook, Twitter, Flickr, YouTube etc.)

Imagem via Maciej Dakowicz

Escrita subjetiva [Yoani Sánchez]

De Cuba, Com Carinho

“Para evitar endeusamentos e futuras crucificações, deixo claro em uma das páginas que o meu blog é um exercício pessoal de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real”.

***

“Meus textos são passionais e subjetivos, cometo o sacrilégio de usar a primeira pessoa do singular e meus leitores sabem que só falo daquilo que vivi”.

Trechos do livro De Cuba, Com Carinho, coletânea de posts do premiado site Geracion Y, da cubana Yoani Sánchez. A obra foi lançada recentemente no Brasil. O blog também conta com uma versão em português. O Link publicou um perfil de Yoani.

Veja também
Entrevista com Yoani Sánchez [Revista Criativa]
Entrevista exclusiva com a blogueira Yoani Sánchez, vencedora do The BOBs 2008

Cobrança de conteúdo online

Na semana passada, a indústria da informação buscou novamente proteger sua atuação. A Declaração de Hamburgo apóia a internet, mas também defende a aprovação de leis para proteção dos direitos de propriedade intelectual. São contra, por exemplo, os agregadores de conteúdo.

O magnata da informação, Rupert Murdoch, quer tirar do Google as notícias de suas publicações.

É um tiro no pé, visto que compartilhar notícias é um dos hábitos mais recorrentes em redes sociais.  O Twitter, por exemplo, é utilizado pelos brasileiros para se manterem atualizados. Biz Stone, um dos criadores do Twitter, já havia definido o serviço de mensagens curtas como uma rede de informação. Um estudo da agência de notícias AP também foi pelo mesmo caminho.

Fica difícil cobrar por algo abundante, o que é o caso atual da informação. Por isso, muitos serviços não querem deter o controle da informação, mas sim sua organização. Caso do Google, o trabalho de curadoria feito em blogs e no Twitter etc. Em tempos de economia da atenção, outras características são mais valiosas, como tempo, atenção e reputação dos agentes.

Até porque partilhar é um dos preceitos da internet. Todavia, muitas pessoas compartilham informações online gratuitamente, mas não necessariamente são vistas como canais de comunicação. Uma foto no Flickr, um vídeo no YouTube podem ser informações a serem “descobertas”. Se há abundância de dados, um trabalho de curadoria, de estipular qual a informação mais relevante, contextualizar esse conhecimento, vira diferencial.

Se a produção de conteúdo é cara, propostas novas, muitas vezes calcadas em projetos coletivos, oferecem novos caminhos. Como no caso do conceito de beatblogging, em que comunicadores atuam em segmentos específicos, e a comunidade lhe dá apoio na produção dessa informação.

Para Bill Gurley, o Google está inaugurando um novo modelo, em que os serviços são ofertados “mais baratos que a gratuidade“.

Mas essa postura é possível porque o Google tem um serviço comercial muito popular, os links patrocinados (por sinal, um monopólio). É daí que vem grande parte do seu faturamento (97%). Dele também vem a verba que financia os demais projetos. É por isso que a empresa procura diversificar suas fontes de renda.

Ademais, quando mais as pessoas usarem seus recursos, mais o Google pode embutir outros produtos, como os links patrocinados. É algo similar ao que ocorre com a TV aberta: a programação é gratuita, que é financiada pelo anúncios.

Além disso, se a TV foi construída em torno de um plano de negócios claro, alicerçada em propaganda, o mesmo não ocorre nas mídias sociais. Aqui, o usuário comum se apropriou primeiramente dessas ferramentas. E as empresas, muitas vezes, tem de traçar inúmeras táticas para também participar (há quem veja uma mudança nesse cenário. E tem até data: em 2010, a web 2.0 será menos social e mais corporativa)

Ademais, muitos sites não geram lucro. Sua existência é possível porque investidores apoiam essas iniciativas. Enquanto esses serviços aumentam sua popularidade, vão buscando formas de capitalizar sua atuação.

O problema da monetização online de conteúdo é que o modelo anterior está se deteriorando muito rapidamente, e não surgiu um novo adequado (nem acredito que haverá apenas um, da mesma forma que hoje existe uma pluralidade de modelos). Por isso, há um anseio por respostas milagrosas e rápidas. Ademais, a indústria da informação é encarada com ceticismo sobre seu futuro. Warren Buffett, um dos grandes investidores do mundo, já disse que não comprará ações de empresas jornalísticas.

Uma das táticas mais empregadas é o modelo freemium. Acredito que pode ser adequada para um determinado público, que busca apronfudamento da informação. São pessoas cuja atuação dependem dos desdobramentos de certos acontecimentos, de projeções que antevêem cenários. Como empresários que precisam de análises sobre a economia. Tenho dúvidas se todas as pessoas buscam isso. Na verdade, muitos se interessam por nichos, e nesse caso há informação de qualidade gratuita. Além disso, se consome muito conteúdo online, é fato. Todavia, muitas vezes trata-se de uma informação “crua”, o dado não lapidado em forma de notícia, com lead, pluralidade de pontos de vista etc.

Ademais, na internet, uma empresa de comunicação específica não compete apenas no seu setor, mas sim como toda a indústria da informação, que divulga conteúdo online. Exemplo: um emissora de TV aberta tem poucos canais competindo pela atenção do público através do aparelho televisivo. Na internet, a competição é total.

Ademais, o site de um jornal impresso, por exemplo, não divulga apenas conteúdo em texto, mas também produz vídeos, programas de áudio etc. Ou seja, a competição ocorre através da hipermídia. Citei apenas a indústria da informação, os meios tradicionais. Há também as informações produzidas e distribuídas via mídias sociais. Então, como cobrar por algo tão abundante? Difícil haver exclusividade, até porque uma matéria publicada num site de conteúdo fechado pode ser copiada e colada em um site com acesso gratuito.

Estamos passando da pull media (quando a notícia chega até você, mesmo sem buscar por ela) para a push media (quando procuramos notícias específicas).

Também se fala muito em não cobrar pelo produto, mas sim pelo serviço. Algo similar ao que ocorre com as empresas de telefonia móvel: o aparelho sai de graça, ou subsidiado, mas a conta e a carência do serviço, não. Será que esse modelo pode ser replicável por pequenas empresas, ou apenas conglomerados com grande escala? E no caso de profissionais criativos, em que o serviço é também o produto?

Jeff Jarvis, autor do livro O que a Google Faria?, se mostra reticente sobre o futuro de certas profissões. Para ele, na web cortamos intermediários. Por exemplo: posso vender meus produtos em sites de leilão, mas sem pagar muito pelo serviço.

Micropagamentos, freemium… Acredito que o momento é ideal para experimentação, testar novos modelos. Já há empresas online que conseguem obter o equilíbrio financeiro, como o Facebook e o Huffington Post. E não haverá apenas um caminho a trilhar.

De toda forma, há empresas do indústria da informação que ainda estão muito apegadas à estrutura atual. Pior: há empresas que entraram nessa fase de transição com grandes problemas econômicos, o que dificulda ainda mais o processo. São como grandes clubes brasileiros de futebol: possuem grandeza e popularidade, mas escolhas anteriores erradas atrapalham seu futuro.

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