Social games + geolocalização: Geocaching, a caça ao tesouro com GPS

Acesse o site Geocaching e descubra se há “tesouros” próximos. Em seguida, inicie a busca com seu GPS. O sistema só indica a localização até certo ponto. Estando próximo do objetivo, você estará sozinho.

Achou alguma coisa? Pode levar, contanto que deixe outro presente dentro da caixa. Assim, outras pessoas poderão continuar usando as coordenadas para realizar novas buscas. Claro, é possível compartilhar a experiência no site do projeto.

O futuro aponta para a geocalização? Geocachers já existem há um bom tempo (viraram, inclusive, tema de documentários; veja no final do post). Foursquare e outras experiências recentes são resultado de uma tendência já “viva”.

Isso vale para muitos hypes tecnológicos. Claro, há empresas que conseguem criar novas tendências ou redefini-las (estariam atentas às verdadeiras necessidades do consumidor?). Todavia, grande parte dos novos produtos e serviços tecnológicos são recebidos de forma entusiasmada, para depois serem esquecidos. Lembra-se do Wolfram|Alpha?

Por isso, investigue o conceito, tente ver o quadro completo. Explore a ideia, que é mais ampla e interessante que fenômenos temporários. Ferramentas online e produtos podem ser transitórios.

A internet e a recriação do eu

OS SITES DE RELACIONAMENTO, por serem um espaço de sociabilidade híbrido, ao mesmo tempo real e virtual, podem deixar as pessoas desconcertadas com relação a quem são, onde estão e fazendo o quê.
[...] As relações virtuais podem ser desconcertantes porque embaralham e dissolvem as fronteiras -que imaginávamos perfeitamente nítidas- entre fantasia e realidade. [...] A realidade psíquica tem mais força de convicção do que a realidade material.
Em geral, temos mais medo dos fantasmas que criamos do que de perigos reais. As relações virtuais denunciam, por levar ao extremo, quanto de fantasia permeia aquilo que pensávamos ser pura realidade.

Marion Minerbo, psicanalista. Texto publicado no caderno Equilíbrio, da Folha de São Paulo

O final de Lost

A Folha, que fez cobertura ao vivo, traz um resumo do episódio final.

Para quem não viu na internet, a AXN vai transmitir amanhã, às 22h, o episódio final de duas horas. Antes, às 20h, o canal exibe um especial sobre o programa.

Lost: The End [finais alternativos]

Damon Lindelof e Carlton Cuse apresentam, no Jimmy Kimmel Live, finais alternativos de Lost.

Mais:

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Veja também:

O final de Lost

Lost: o longo caminho até aqui [outros seriados norte-americanos que inovaram]

Lost talvez seja o programa que todo roteirista sonhou trabalhar. As ideias mais inventivas, lúdicas, não foram rechaçadas por serem inusitadas (“o público não está preparado para isso”), mas sim acolhidas.

Entretanto, Lost também estava no lugar certo, no momento exato:  é tido como a própria mudança, quando na verdade representa o amadurecimento de tendências que já estavam em desenvolvimento.

Quando Lost foi lançado, a internet já era bastante popular. Era mais fácil baixar episódios online. Relacionar-se em rede já havia se tornado algo comum. Era mais fácil encontrar fãs que partilham dos mesmos interesses. O hiato de exibição em relação aos EUA era preenchido pelos próprios fãs, que compartilhavam e traduziam os episódios. Novamente, não é algo novo. Nos anos 1990, fãs de Arquivo X trocavam fitas VHS com episódios inéditos, geralmente via encomenda dos EUA. Muitas vezes, organizavam encontros em que esses episódios eram exibidos. Isso ocorreu muitos antes da popularização dos programas P2P ou de virar tradição o lançamento oficial dos boxes com temporadas completas. Aliás, muitos preferem assistir séries assim, de uma vez, e não acompanhar a transmissão na TV.

Mas essa é apenas uma das características que Lost “herdou” de outros programas.  Fan made, transmídia… Outros produtos culturais já tinham realizado isso. Lost, além de usar vários elementos inovadores juntos, levou essas práticas a outro nível.

(Ao contrário de filmes e livros, um seriado, por ser uma obra não acabada, atualmente apresenta melhores resultados em termos de criação aberta, adota com mais eficiência a narrativa transmídia. Isso porque não expande o universo narrativo já concluído em outro meio, muitas vezes criado sem pensar na convergência entre as mídias. O desenvolvimento ocorre durante a própria exibição. Claro, livros e filmes podem fazer parte de uma saga. Todavia, os hiatos podem ser longos demais e a obra em si ser consumida em pouco tempo. Os apreciadores poderiam preencher essa lacuna. Todavia, as criações dos fãs serviriam mais para aumentar a devoção de um produto cultural que não vai ganhar novos desdobramentos “oficiais”. Ao contrário de um seriado, cujas temporadas exibem vários episódios anualmente. Além disso, os produtores de cinema e os editores de livros geralmente são mais críticos em relação a esses desdobramentos não licenciados. Preferem criações pagas, como jogos eletrônicos.)

O suspense seduz, atrai e atiça a curiosidade. Mas também decepciona, caso a solução seja constantemente protelada ou as respostas apresentadas sejam fracas. Criada pelo cultuado cineasta David Lynch, Twin Peaks teve uma primeira temporada de sucesso. Na segunda, a queda de audiência foi tão grande que o programa foi cancelado. Twin Peaks foi um dos primeiros programas a tentar buscar, no início dos anos 1990, novas fórmulas na TV norte-americana. Foi o desbravador para outras iniciativas. Se outras tramas ofereciam episódios com começo, meio e fim, Twin Peaks exigia dos telespectadores fidelidade. É preciso ver o todo para que as partes façam sentido. Ou ganhem novas leituras.

(Mais recentemente, Heroes, uma das várias séries apontadas como sucessoras de Lost, optou por uma mistura de seriado com minisérie, em que um arco narrativo apresenta começo, meio e fim na mesma temporada. Um problema novo é apresentado a cada temporada, encontrando sua solução no final dessa safra de episódios).

Nos anos 1990, outras séries buscaram novos temas, tatearam novas propostas narrativas. Seinfeld não era mais um programa humorístico sobre amigos ou a dinâmica de uma família. A série ficou conhecida como a sitcom sobre o nada. A HBO lançou vários seriados adultos (Oz, Sopranos etc.). O sucesso desses programas pavimentou o surgimento de outros seriados. Ademais, a evolução e baratamento dos efeitos especiais tornou mais fácil algumas temáticas ganharem a tela pequena.

Buffy também representou um sopro de criatividade. Personagens principais (uma “irmã” da protagonista) foram introduzidas na trama de forma abrupta, como se sempre tivessem existido, o que desnorteava a audiência. A explicação só viria depois. O seriado da caça-vampiros também limou personagens queridos, transmitiu episódio musical e misturou seres fantásticos num mesmo show. Hoje pode parecer padrão encontrar seres como lobisomens, vampiros, fantastas etc. na mesma trama, vide True Blood e Crepúsculo. Todavia, até Buffy isso não era comum. Aliás, Buffy acabou apenas na TV. A saga da caça-vampiros continua nos quadrinhos.

Outro seriado  também foi responsável pelos novos rumos da TV: Arquivo X. O programa, durante bom tempo, foi bem-sucedido. Todavia, para ficar tanto tempo no ar, adiou demais a resolução do mistério, usou elementos de novela para continuar no ar (as personagens principais vão ficar juntas?) e ainda continuou por mais duas temporadas mesmo quando a personagem principal abandonou o show.

De toda forma, Arquivo X foi um seriado à frente do seu tempo. Conseguiu ser um fenômeno pop, e não apenas um sucesso de nicho. Dialogava com uma plateia ampla, mesmo oferecendo um cardápio mais rebuscado. Ou seja, conseguiu manter a atenção do que seria seu público primário, sem alienar uma audiência mais plural. Ganhou inclusive a grande tela. Durante sua existência, muitos seriados conseguem até ser tema de telefilmes. Arquivo X foi um dos poucos a ganhar um longa nos cinemas enquanto existia também na TV.

Penso, muitas vezes, como seria se alguns desses programas tivessem vivido seu período áureo na época da internet. Seriam debatidos à exaustão, ganhariam rumos paralelos criados pelos fãs?

Esses são apenas alguns exemplos (recentes) da indústria cultural. Há vários outros seriados inovadores, muitos deles não conseguiram trilhar um caminho de sucesso. Mais importante: deve ser apenas o começo. Daqui a pouco, acredito, mais experiências surgirão na web, via produtores independentes.

Lost: the end

Chegou o momento de se despedir. Melhor escrever antes da exibição do último episódio (hoje, nos EUA; próxima terça, no Brasil), para não incorrer no erro de julgar o legado do seriado baseado apenas nas respostas oferecidas no final. Para quem procura uma resolução definitiva – no estilo quem matou Odete Roitman- o final pode ser decepcionante. Possivelmente deve seguir os passos do aclamado seriado Sopranos. Mesmo sendo um programa mais linear que Lost, não se preocupou em oferecer todas as respostas. Mais isso é apenas uma conjectura, mais uma entre tantas feitas por fãs.

Uma das características do jornalismo cultural é tentar explicar a obra analisada, apresentá-la para o público que não a conhece. Lost dificulta isso. Sua trama cheia de reentrâncias, de caminhos não lineares transforma essa tarefa num feito bastante improvável. Ademais, poderia ter resultado negativo por simplificar a proposta do programa: o emaranhado de tramas é um dos trunfos de Lost. Ademais, poderia revelar fatos importantes do seriado.

Lost estava no lugar certo, no momento adequado. Nos EUA, a série foi exibida na ABC, canal que enfrentava grave crise de audiência. Quando se está por baixo, jogadas inovadoras têm melhor acolhida. Em muitos casos de sucesso, o medo do fracasso vira abrigo para continuar no mesmo.

No caso da ABC, o canal precisava renovar sua programação. No mesmo ano, a emissora também lançou Desperate Housewives. Outro sucesso. Entretanto, antes de encontrar acolhida na ABC, havia sido rejeitada até por pequenos canais de TV a cabo.

(De lá para cá, a ABC coleciona vários sucessos, o que deveria  incentivar as empresas de comunicação e entretenimento a arriscarem mais)

Nas primeiras temporadas de Lost, mais mistérios que explicações. Na verdade, com o intuito de prolongar a trama, o seriado muitas vezes parecia esticado, novos personagens que nada acrescentaram ao programa ganhavam destaque. A série, por vezes, parecia apenas querer ganhar tempo. Com o final anunciado há três anos, provavelmente devido à erosão da audiência, as temporadas ficaram mais ágeis, menos episódios eram transmitidos. Eles passaram a ser exibidos em sequência, sem muitas repetições. Na última safra, apenas um episódio foi reprisado.

Se a trama fosse exibida na TV paga, talvez Lost ficasse livre de tantas cobranças por audiência. Ademais, menos episódios seriam produzidos por temporada. Ou seja, ganharia em ritmo. O público veria menos embromação. Por outro lado, não tornaria possível testar novas ideias numa emissora aberta. Lost provou que o grande público está preparado para novas propostas narrativas.

(Aliás, falar de queda de audiência é impreciso. A maioria dos programas perde público com o tempo. Ademais, a diminuição do número de telespectadores é generalizada, já que a internet “rouba” audiência de outros meios)

Alguns podem dizer que a série solucionava os mistérios criados com novos desdobramentos pouco elucidativos. O seriado emulava as bonecas russas matrioshka em que, ao abri-las, novas bonecas vão surgindo. Todavia, poucos seriados conseguiram “enrolar” o público de forma tão criativa. Exemplo: na quinta temporada, [spoiler] alguns integrantes conseguem sair da ilha. Os que “ficaram” viajaram no tempo. No final, os dois grupos estavam novamente juntos. De certa forma, retornam ao ponto que estavam no começo dessa temporada. Mas foi uma viagem divertida, que prendeu a atenção.

O tempo de “enrolação” também foi útil para a narrativa. Se a trama pareceu arrastada em alguns momentos, o tempo a mais serviu para que a plateia se identificasse com os personagens, acompanhasse sua evolução. Com isso, as baixas ao longo do caminho foram mais sentidas, porque foram ceifados da trama personagens populares. Em Lost, morria “gente importante”. Ademais, as personagens não eram unidimensionais. A diferença entre o bem e o mal não era tão clara.

Poucos programas ousaram tanto. O seriado não utilizou artifícios simples e óbvios, como dizer que tudo não passou de um sonho. Mesmo as coincidências, uma dos recursos mais pobres para amarrar narrativas, em Lost fez sentido: as peças do quebra-cabeça faziam parte um plano maior.

Claro, a trajetória não ocorreu sem sobressaltos. Na sexta temporada, [spoiler] os “novos”outros, apresentados no começo dessa temporada, não acrescentaram muito. Também foi criada uma realidade alternativa. O seriado se desenvolveu em duas tramas. O criativo recurso não foi bem utilizado. No começo, a realidade paralela tomava grande parte dos episódios. Pouco atraentes, renderam alguns dos piores momentos da série. Como os episódios protagonizados por Kate e Ben. Foram ruins e não acrescentaram nada significativo à trama. Com o tempo, essa realidade alternativa ficou mais interessante. A trama “atual” ganhou também mais destaque, ocupando a maior parte do tempo dos episódios.

(É importante evitar o sentimento de que Lost criou tudo, que antes não existia criatividade na TV. Exemplo: outros programas já haviam “brincado” recentemente com o tempo. Early Edition era calcado nisso; J.J. Abrams, um dos criadores de Lost, já tinha utilizado o mesmo artifício num drama sobre jovens, Felicity).

Há também os furos de roteiro. Todavia, o que acho mais grave é a incoerência dos personagens. Se muitos eram carismáticos, eles também eram responsáveis por atitudes no mínimo estranhas. Na quinta temporada, [spoiler] a maioria das personagens se voltou contra Jack. Os motivos eram fúteis. Muitos nem foram explicados. Sayid, um assassino profissional, tenta matar o jovem Ben com apenas um tiro. Quando os demais retornam à ilha, na quinta temporada, não são feitas perguntas sensatas e óbvias. Tipo: “ei, nós voltamos porque disseram que vocês corriam perigo, o que está acontecendo?”. Para quem ficou na ilha, o mundo exterior pareceu pouco atrativo, já que não questionaram nada sobre ele. Nem os fatos mais mundanos, como resultados de torneios esportivos, nem desdobramentos com os quais tinham contato emocional (“Onde está Aaron”?), despertaram a curiosidade deles. Na morte de Jin e Sun, uma trama que se arrastou, nenhum sugere ao outro: “vá cuidar da nossa filha, ela deve ser criada por pelo menos um de nós”. E no episódio em que Jacob se mostra para os candidatos, é de estranhar a falta de criatividade e curiosidade das perguntas feitas. Faltaram questionamentos óbvios, tais como “o que é a ilha?”, “tá, você disse que eu sou como você agora, mas o que isso quer dizer na prática?”, “o que é a fumaça?” etc. As respostas de Jacob também foram demasiadas desinteressantes. Os motivos porque escolheu essas pessoas, porque Kate foi cortada da disputa…

Esses são apenas alguns exemplos. No plano geral, outros equívocos foram mais significativos. Personagens que pareceriam muito importantes foram abandonados. Novos caminhos da narrativa se mostram becos sem saída (seriam pistas falsas?). Ademais, até determinado ponto, a trama tinha ares científicos. Quando o programa entrou na sua reta final, as respostas começaram a ser mais fantasiosas, místicas.

Lost pode inaugurar uma nova fase na TV? Os mais otimistas podem dizer que sim. Primeiro, por mostrar que é possível optar por caminhos narrativos diferentes, mesmo em meios mainstream. Segundo, porque aprendeu com as experiências passadas. Anunciou, três temporadas antes, quando iria acabar. A mensagem foi clara: esperem mais alguns capítulos, há uma conclusão para tudo isso. Se Arquivo X tinha apenas um elemento MacGuffin, o fator mistério que prende a atenção dos telespectadores, Lost lançava vários. Havia a grande pergunta (“o que é a ilha?”), mas novos mistérios também prenderam a atenção do público.

No final das temporadas, o programa não apresentava um desfecho, mas sim jogava uma nova dúvida no ar (eles saíram da ilha? o plano de retornar ao presente deu certo?). Algo que lembrava os finais de temporada de Friends (quem está grávida? qual o futuro do casamento de Ross?).

Outros podem ser mais céticos e analisar o seriado como um evento único. Muitos programas já tentaram suceder Lost (Jericho, FlashForward), mas malograram. Como expliquei acima, são vários os fatores que contribuíram para a série ser o que é. Muito deles dificilmente poderiam ser planejados. Não se trata de uma fábrica criativa em que surge Pokemon e, havendo demanda, outro bebe da mesma fonte (Digimon) e por aí vai.

[Atualização: Aliás, o próximo fenômeno precisa vir da TV? Essa análise soa conservadora. Lost não dialogou com tantos meios, porque sua influência não poderia ecoar em outras artes? Se no caso de Lost o "epicentro" narrativo foi a TV, porque outra criação não poderia conduzir seu eixo narrativo a partir da internet, o que poderia suscitar novos desdobramentos, como a criação coletiva? Ou mesmo já nascer multimídia, sem possuir um foco narrativo em apenas um meio de comunicação?

Por mais que identifique problemas na condução do programa, o quadro geral é mais importante do que os tropeços ocasionais. Fico imaginando: e agora, o que vem depois? Lost não é apenas um fenômeno pop, mas sim um referencial de narrativa transmídia, de novas possibilidades ficcionais. Assim como um ótimo disco de rock que, ao mesmo tempo que influencia jovens músicos, que podem emular eficientemente essa obra inicial, também enseja a criação de obras inovadoras. Sua influência ecoa para além de seu tempo. Lost deve se tornar uma obra importante não apenas para o consumidor final de cultura, mas principalmente para os criativos.]

Voltando a 23 de maio de 2010. Deixando de lado devaneios sobre o futuro, o importante foi própria jornada. “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar” (Antonio Machado). 114 capítulos depois, Lost chega ao fim (será?). Mais de 100 horas de programa encontram sua resolução. A ansiedade de descobrir os mistérios da iha dará lugar à angústia de não escutar mais Previously on Lost…