Sites versáteis


Sugestões úteis para webdesigners. Procurando mais dicas? Conheça o Responsive Web design, abordagem que sugere que a concepção e desenvolvimento do projeto deve atentar para muitas variáveis (usuário, a plataforma, o tamanho da tela)… Na prática, muda o dispositivo de acesso ao site, a página se adequa a esse gadget.

Ficou perdido? Aqui você encontra 45 livros digitais para designers e programadores. Em inglês.

Bildungsroman

Um grande amigo meu, Eldon, precisa de doação de sangue para realizar uma cirurgia urgentemente. Do contrário, pode sofrer derrame. Local para doar: Fujisan (Avenida Barão de Studart, 2626, Fortaleza-CE). Nome do paciente: Eldon Machado Bezerra (hospital São Carlos). Se não puder doar, ou não está nessa cidade, peço que pelo menos divulge essa informação entre seus contatos.

Caracterizar Eldon como amigo é incompleto. Sua participação na minha vida vai além da mera camaradagem. É alguém que colaborou na minha formação.

Meus pais são maravilhosos. Deram-me a segurança para honrar meus sonhos. Se fracassar, sempre posso voltar para o ninho. Serei abraçado, não questionado.

Além deles e de outros familiares, muitos contribuíram para minha educação afetiva. Fico feliz por ter conhecido tantas pessoas que ampliaram minha sensação de segurança e proteção. Entre elas, Eldon é um dos mais importantes.

Estranho é o ser quando jovem. O processo de construção da identidade se acentua no período mas, mesmo quando é acolhido pelos pais, não acha que é entendido pelos mais velhos. A rebeldia é uma coisa boa: é o ser construindo seu próprio caminho. Ele está negando o que não deseja, tentando encontrar quem quer ser. Mais do que ser especial, queremos ser únicos. Infelizmente, muitos pais julgam, não compreendem. A culpa não é deles. É difícil assimilar o que não viveram. Até porque muitos são guiados pelo desejo de proteção da cria. Qualquer rota mais arriscada (ou influência externa) vira ameaça.

O crescimento é individual, mas a aprendizagem pode ser compartilhada. Basta encontrar seus iguais. “Sou mais eu, quando sou tu” (Paul Celan). Os incompreendidos se entendem. A inquietação de se achar excluído é substituída pela inquietação de compartilhar.

A cumplicidade não é baseada apenas nos interesses a fins. Nada mais incoerente que um jovem que procura mais do mesmo, que já tem tantas certezas. Também se mira o novo. No delicado livro Só Garotos, a cantora Patti Smith narra o processo de crescimento compartilhado com seu amigo Robert Mapplethorpe. Ao chegar em Nova York, conheceu Robert. A partir daí, se encontrou.

Eldon faz parte da minha vida desde o colégio. Nos conhemos na sétima série. Depois de trocarmos vários filmes em VHS, fomos estudar juntos. Só conversamos. Resultado: tirei nota vermelha. Valeu a pena. Essa conversa continua até hoje.

Nunca me preocupei em saber quais seriam as boas atrações do fim de semana: você era minha agenda cultural. Aliás, seria inócuo procurar nos jornais o que apenas você sabia.

Já fomos para uma festa “imperdível” em que tivemos de pegar ônibus, depois táxi para só chegar ao destino duas horas depois. E de carona numa bicicleta. Já dormimos em carro para aproveitar o carnaval.  Também já estivemos numa feira da música reduzida. Só havia um pequeno quiosque de uma loja de discos e uma cantora iniciante nitidamente constrangida com o escasso público e estrutura mínima do evento. Até em show de axé fomos vistos. Nossa participação foi perpetuada: era a gravação de um álbum ao vivo.

Na maioria das vezes, estávamos vestidos de escuro. O som melancólico das bandas britânicas dos anos 1980 nos guiava. O tom triste das canções contrastava com nossa alegria em dançá-las. Se alguns se soltam apenas no chuveiro, não tínhamos medo de sermos (desengonçados) dançarinos felizes em público.

Mesmo sem grana, nos divertíamos. Já fomos numa distante festa de réveillon sem saber bem como voltar para casa. Para os outros, éramos os mais empolgados. Na verdade, só abandonávamos a discoteca quando os ônibus voltavam a circular. No outro dia. O que nos garantiu conhecer personagens bem curiosos.

Livros, filmes, HQs, games… Consumíamos o que atraia as demais pessoas da nossa idade, mas só isso não bastava. Os filmes mais alternativos, nas sessões mais impróprias, despertavam nosso interesse. Já pedi para alguém fingir que era meu pai para poder assistir Trainspotting no cinema. Você, mais velho um ano, não tinha esse problema. Fatos inusitados como esse eram recorrentes. Já tivemos de correr porque o ônibus, o último dessa rota no dia, deu prego num bairro perigoso. Os integrantes de uma gangue ameaçaram baixar e dar uma “geral”.

Foi curioso ver você correr. No colégio, quando os professores de educação física jogavam mais de 30 alunos num campo para jogar futebol, nós contabilizávamos nossos chutes. Ganhava quem tocasse menos na bola. Quando nos mandavam correr em volta do ginásio, íamos no esconder na praça próxima. Nos molhávamos para parecermos suados e retornávamos, no final do exercício.

Mesmo fazendo tanta coisa em comum, éramos diferentes. Eu não bebia, tampouco fumava. Você, filho único. Eu, com três irmãos. Eu tinha o riso fácil. Você, um humor mais ácido. Se havia interseções em nossos gostos culturais, você ressaltava muito do que eu apreciava como imperfeições. Como o fato de adorar bandas grunge. Mesmo quando você AINDA gostava de artistas do gênero, havia diferença. Eu optava pelo Pearl Jam. Você, Nirvana.

Acima de tudo, havia humor. O grande mentecapto passou por todos do nosso grupo, o que deve ter influenciado. Em grande parte, um tirava sarro do outro. Para falar a verdade, nem precisávamos do fim de semana. Durante a aula, já nos divertíamos muito. No último ano, quando muitos estavam preocupados com o vestibular, você criou uma fileira especial na sala de aula: era o único integrante. Ao invés de começar na frente da sala, perto do quadro negro, você sentava numa fileira que iniciava… no final da classe. Entre outras coisas, isso deixava você mais perto da tomada para colocar seu aparelho de som. O que permitia escutar música brega durante a aula do professor que tinha problemas auditivos.

Era um grupo engraçado para se levar a sério: um dos nossos -que, entre outras coisas, levava saco de pão para as calouradas para não gastar, que usava um carro vintage Lada (imagem acima) para nos transportar- foi o primeiro lugar no vestibular da Federal do Ceará.

Muitos faziam parte da nossa turma. Num colégio de visões conversadoras, não ignorávamos os gays e outros excluídos (como muitos faziam). Com o tempo, o bando se fez grupo. Você montou sua banda de rock. Eu, fui brincar de ser DJ. Antes, você montou um bar (chamado 69), juntamente com o Paulo. Você era o cozinheiro (?) Isso tudo para podermos escutar as músicas que gostávamos. Não tínhamos tempo para reclamação. Fazíamos.

Quando saíamos a noite, procurávamos por bares em que pudéssemos sugerir o que tocar. Quando as opções foram ficando escassas, fomos acolhidos no bar do divertido homossexual Batgirl. Era o único bar tocando Joy Division da região. Creio que em toda a cidade.

Muitos ficam velhos; poucos amadurecem. Curiosamente, os anos que estivemos mais distantes foram os que eu mais “envelheci”. Sempre gostei mais de mim quando nossa turma estava junta. Não porque sou aceito sem restrição. Amigo não é só o confidente e cúmplice, mas também aquele que sugere. E critica. Enfim, que quer o melhor para o outro.

Tendo passado grande parte de 2010 hospitalizado, você não perdeu o humor. O papo é leve e descontraído, como sempre foi. Manteve também o afeto. No hospital, você me apresenta para os demais como irmão. Numa época que tantos afortunados reclamam de fatos pequenos, você nunca perdeu a esperança. Nem eu. Por isso, peço que ajude meu amigo a continuar lutando.

Na literatura, há um termo para descrever os “romances de formação”: “Bildungsroman“. São obras que narram o desenvolvimento do protagonista. Da infância à idade madura. Dizer que te amo é pouco. Sem você, seria outro. Sem você, quem eu seria?