A "amizade" conectada
Nós transformamos [nossos amigos] em uma massa indiscriminada, uma espécie de audiência ou público sem rosto. Dirigimo-nos a eles não como um círculo de pessoas próximas…. A amizade está deixando de ser uma relação para se transformar num sentimento.
O escritor William Deresiewicz é uma das pessoas ouvidas pelo ótimo texto sobre o “mundo Facebook”.
É comum, por exemplo, amigos convidarem seus contatos para atividades sociais apenas via Twitter (esquecendo o envio de SMS ou e-mail). Como se todos estivessem 24 horas”on-line” no microblog. Ou seja, trata-se de um chamamento público. Todavia, a cobrança de não comparecer a esses eventos pode ser feita de forma pessoal.
(Cresceu bastante a busca nesse blog sobre como descobrir se alguém está on-line no Twitter, como se a ferramenta fosse um MSN aberto).
A amizade advém de duas características importantes: gostos similares (fãs de um mesmo estilo musical, por exemplo) e experiências compartilhadas (contato surgido no ambiente de trabalho, colégio etc.). Todavia, a internet amplia essas possibilidades. Se você se sente um estrangeiro onde mora, pode encontrar pessoas que compartilham do mesmo interesse no ciberespaço. Entretanto, essa nova dinâmica relacional pode apresentar aspectos negativos.
Nesse novo necessário, contatos sem muita profundidade são retratados como amizades consolidadas. Por outro lado, pessoas que se conhecem “no mundo real” se esbarram on-line por motivos tolos, em discussões etéreas. A mídia social, muitas vezes, ressalta mais sua característica social do que de mídia.
Deixar de seguir alguém no Twitter (unfollow) pode azedar amizades. Isso influencia no processo de propagação da informação online. Características como amizade ou busca de aproximação com alguém incidem na prática de retuitar informações no Twitter, por exemplo. Há quem se porte como um radialista do interior, sendo simpático com todos, já que busca uma vaga de vereador nas próximas eleições. Ou seja, soa forçado. É como se passasse o dia distribuindo cartões de visita.
Na sexta, a prática de indicar perfis no Twitter (#Follow Friday/#FF) é distorcida pelo fato da pessoa recomendar inúmeras contas. Transforma-se uma característica interessante em mais uma forma de fazer média, já que o agraciado pela indicação pode ver no gesto uma grande homenagem. Na prática, o efeito é inócuo, já que não dá visibilidade específica. Seria o mesmo que você ir numa locadora de filmes, pedir uma recomendação e o atendente indicar 20 DVDs “de destaque”. Dessa forma, o resultado do #FF é inverso ao seu propósito original, já que é útil apenas para quem faz “networking” o dia todo.
O que era para ser um artifício para destacar conteúdo, vira mais uma forma de massagear o ego alheio. Ademais, muitas vezes o que está sendo recomendado não é o conteúdo postado por ela, mas sim a própria pessoa (ou seu cargo), já que o perfil é pouco atualizado no Twitter. Sua visibilidade advém do mundo “real”: jornalista reconhecido, empresário bem-sucedido etc.
É por isso que optei em fazer minhas recomendações (#Follow Friday) na quinta, destacando os perfis que passei a seguir recentemente. E há ótimas pessoas novas no Twitter, mesmo com poucos seguidores. Ou mesmo recomendar blogs e perfis durante a semana, sem data específica.
Outras táticas utilizadas: retuitar mensagens alheias. Não necessariamente links com conteúdo postado por ela em outros serviços online (como blogs), mas sim frases, pensamentos, aforismos. Ou seja, você diz como essa pessoa é “inteligente”. Até um simples “bom fim de semana” é retuitado. Se está na busca por aumentar seu número de seguidores, o que muitos erroneamente tratam como sinônimo de influência e respeitabilidade, também é aconselhado acompanhar todos s que lhe seguem (muitas vezes, explicitando que faz essa prática no seu perfil no Twitter).
O assunto é complexo e obviamente não se esgota em apenas um texto. E nem possui apenas essa vertente negativa que predomina no post (que tampouco é uma indireta para alguém). Mas achei que valia a pena refletir sobre como a web 2.0 pode ser uma mídia em que se faz tanta média. Prometo voltar ao tema posteriormente.
Mais: o jornal New York Times debateu porque, ao contrário de outras redes sociais, o Facebook fica cada vez maior com o passar do tempo.
