A Origem e a defesa dos sonhos
Na sexta passada, estreou no Brasil A Origem (Inception). Venho falando sobre o novo filme de Christopher Nolan (Memento) há algum tempo. Na internet, esbarrei em vários textos sobre a obra. Grande parte da discussão é centrada no debate sobre a trama ser difícil ou não. Para mim, A Origem oferece o que Matrix ensaiou entregar.
De toda forma, não quero falar sobre qualidades e defeitos cinematográficos. Para além dessa visão, achei mais interessante as análises sobre os temas que o filme suscita, os “links” que as pessoas encontram (principalmente com outras mídias). Chega de tanta realidade, de tentar emular aspectos do mundo tangível.
Sempre acho mais interessante obras que me convidam para um ambiente inventado, que vão além da mera repetição da realidade. Filmes como Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, o realismo fantástico na literatura latino-americana, o humor nonsense da trupe Monty Python são bons exemplos do que atrai minha atenção.
Vale lembrar:, “inventado” não é sinônimo de falso. Se aceitar esses convites inusitados, a ideia pode “fazer sentido”. Se acreditar na criatividade do artista, pode viver uma experiência lúdica, mas real. O cenário é crível; a emoção, genuína.
Entretanto, atualmente até os videogames teimam em querer ser realistas, simularem o que já se conhece. Opto pela experiência lúdica do universo do Super Mario, criação da mente inventiva do mestre Shigeru Miyamoto.
Prefiro obras que me levam a percorrer novos caminhos, me jogam em lugares onde nunca estive antes. Talvez por isso tenha adorado A Origem: gosto do sonho. Os meus e dos outros.
(Obviamente, não aprecio apenas isso. Adoro documentários, obras de ficção que compartilham da ideia defendida pelo escritor russo Leon Tolstoi: “Descreva a sua aldeia e você será universal.” Todavia, acredito que há tantas obras que defendem ao extremo essa premissa que se moldou um novo gênero narrativo: a arte com GPS. É uma conversa para outro post, mas talvez seja por isso que atualmente o cinema argentino tenha se tornado mais bem-sucedido internacionalmente que o brasileiro: oferece dramas humanos, não filmes descritivos sobre realidades particulares, que fazem mais sentido para os integrantes dessa comunidade. Em muitas obras nacionais, o cenário é mais importante que as personagens).
Retomando o papo sobre A Origem: a jornalista Taís Aragão comentou no seu perfil no Twitter sobre a ligação do filme com a obra de Jorge Luís Borges. Para ela, quando a personagem de Leonardo DiCaprio diz que irá a Buenos Aires, o filme faz referência direta a Borges: labirintos, sonho no sonho… Mais precisamente o conto As ruínas circulares, que faz parte do livro Ficções do escritor argentino. É isso tipo de coisa que adoro.
Defenda seus sonhos
De toda forma… E se a premissa do filme não for tão irreal assim? De acordo com uma área da neurologia (link exclusivo para assinantes Folha/UOL), é possível que um indivíduo controle seus próprios sonhos (de forma limitada). Eis um trecho da matéria publicada sobre o assunto no caderno Equilíbrio, da Folha de São Paulo:
Alguém que tenha um pesadelo recorrente pode aprender a substituir seu script aterrorizante por uma versão mais amena.
Bons ou ruins, os sonhos são misturas criadas pelo inconsciente que processa, ordena e guarda emoções do dia, lembranças reprimidas e desejos ocultos.
A matéria oferece um alento (pesquei um trecho maior do texto aqui). É bom saber que é possível ampliar nossas experiências. O sonho sonhado encontra o sonho vivido. Parafraseando Cecília Meireles: “Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens… Não queiras ser o amanhã. Faze-te sem limites no tempo.”
A Origem fala sobre a defesa dos sonhos. Bobagem, diriam os céticos (ou aquele outro grupo se diz realista, não pessimista). Por não cultivarem o ato de sonhar, tem suas vidas guiadas por referências externas.
O problema é que há tantas pessoas se preocupando com noções tortas de certo ou errado – o que é de bom tom, o que é uma carreira admirável etc. – que deixam de ter experiências pessoais, de traçar caminhos próprios. São personagens secundárias, mesmo na narrativa de suas próprias vidas. São zumbis, compartilham uma experiência coletiva nivelada por baixo. Não sabem quais são seus anseios genuinamente pessoais. Desconhecem… seus sonhos.
Os que honram seus sonhos se tornam visionários. Sabem que mais do que um convite para o lúdico, os sonhos representam um mapa onírico para a vida.
Há quem se diga bem-sucedido. Falam de realizações, mas não são pessoas realizadas. Descrevem suas conquistas sem brilhos nos olhos. Empolgam-se com prêmios, dinheiro… A experiência só faz sentido se despertar a atenção -ou a inveja- do olhar alheio. Fato curioso: vivemos uma época “virtual”, de criação de avatares. Todavia, muitos passam grande parte do tempo reclamando, retratam a realidade como pesadelo. São pessoas que precisam despertar? Mas há tempo para mudar o rumo. Sempre há. Todo dia a vida lhe convida para sonhar. Treina à noite. E realiza de dia.
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