Amor e cinema: nessa relação, o final feliz nem sempre é garantido
Em 2011, alguns filmes românticos me decepcionaram. O que parecia ser um sopro de novidade, como Sexo Sem Compromisso (No Strings Attached, 2011) e Amizade Colorida (Friends with Benefits, 2011), se perdeu nos clichês de sempre. No máximo, são filmes irregulares: boas tiradas convivem com momentos sem graça.
(Veja também: 2011, eu te amo – as melhores histórias de amor do cinema nesse ano)
Não que isso seja propriamente novo. Valia mais como “veneno anti-monotonia” nesses tempos caretas. Aliás, todo relacionamento, se bem-sucedido, deve culminar em casamento? O passo seguinte é ter filhos? O que conta é a intensidade ou a duração da relação? Muitos filmes questionaram isso ao adicionar um novo elemento: Three of Hearts (1993), Três Formas de Amar (Threesome, 1994) e Os Sonhadores (The Dreamers, 2003) são exemplos recentes. São triângulos amorosos verdadeiros: ninguém fica de fora. Muito antes, Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (1962) já havia feito história. Nove anos depois, o mesmo diretor, François Truffaut, adaptaria outra livro de Henri-Pierre Roché para a tela grande: As Duas Inglesas e o Amor (Les deux Anglaises et le continent, 1971). Mais um triângulo amoroso.
Grande parte dos filmes românticos é assexuado, pudico. Em Maridos E Esposas (Husbands and Wives, 1992), de Woody Allen, um casal brinca com o fato do sexo no casamento permanecer um tabu. Dessa forma, uma parte importante do relacionamento é negligenciada. Quando aparece, soa tão afetado quanto uma transa idealizada por uma adolescente que suspira por seu ídolo pop.
Grande parte desses filmes apresenta apenas a vida sentimental dos personagens, esquecendo de falar de outros componentes da relação, como a vida sexual e financeira. Nos filmes românticos, o cartão de crédito não tem limites. Assim, fica fácil se entregar ao amor: nossas escolhas não representam renúncias, só novas possibilidades de prazer.
Pode ser pior: mostrar o sexo como algo proibido, “pecaminoso” ou misturado a violência. Você pode até gozar, mas apenas fora do casamento. E o preço a se pagar é alto. Infidelidade (Unfaithful, 2002) e Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987) tem tudo isso. Curiosamente, são do mesmo diretor, Adrian Lyne, o mesmo de Lolita (versão 1997), Proposta Indecente e 9 1/2 Semanas de Amor.
O mesmo vale para Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love, 2011), a comédia romântica de maior sucesso do verão norte-americano nesse ano. O ingresso se paga pela presença luminosa de Emma Stone. Ryan Gosling também se destaca, fazendo um papel mais leve do que de costume.
De toda forma, opte por outro filme de Steve Carell, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life, 2007), no qual ele faz, basicamente, o mesmo papel. E o resultado é muito superior.
[Uma alternativa a Steve Carrel é Corações Apaixonados (Playing by Heart, 1998), belo filme sobre desencontros amorosos. Com Angelina Jolie, extremamente bela, ainda em começo de carreira.]***
O problema que tenho com Amor a Toda Prova vai além da idealização dos afetos. É a mesma falha encontrada em várias comédias românticas norte-americanas: são tão voltadas para as espectadoras que, paradoxalmente, a personagem feminina é esquecida. Ela não importa, só o que almeja. Geralmente um homem imperfeito, que precisa ser consertado para conquistar seu amor. Ele é a força motriz do filme, que terá de fazer uma grande declaração pública de amor, um pedido de desculpas espalhafatoso e por aí vai… Apenas a promessa de amor já serve, como se fosse possível ser feliz sem ação.
Amor a Toda Prova é bastante curioso: Carell, um certinho e dedicado marido, é traído por sua mulher. Mas cabe a ele valorizá-la, correr atrás… No mínimo, deveria ser um esforço conjunto. De toda forma, não acho que seria justo. A personagem de Julianne Moore é mostrada sem atrativos. Talvez Carell a persiga não pelos atributos dela, mas para evitar a solidão.
Quem sabe não seja falta de criatividade, mas sim apego às fórmulas. É difícil abandonar antigos hábitos. A culpa é dos cineastas e do público, que sempre quer mais do mesmo. [spoiler] Em Separados pelo Casamento (The Break-Up, 2006), o casal de opostos vivido por Vince Vaughn e Jennifer Aniston termina separado, mas há uma sugestão de reconciliação. É preciso manter a esperança da plateia. Esse é um final alterado; o original, que foi rejeitado por testes de audiência, mostrava os dois já devidamente acompanhados. E os novos parceiros são iguais aos que foram descartados. [final do spoiler]
Carell, apesar de ter de passar pela mesma provação que os homens são submetidos nesse tipo de filme, é exceção. A maioria deles são cretinos que, lá no fundo, são maravilhosos, românticos… Isso na visão delas. Seria até válido questionar essas mulheres apaixonadas da tela se elas realmente existissem. Mas não, você nem as conhece. Soa como uma anúncio sentimental ultrasincero e repelente: mulher solteira, sonhadora e atolada no trabalho, que já sofreu muito (na labuta, não é reconhecida; nas relações amorosas, sempre se deu mal) procura…
Talvez elas sejam ocas porque são customizáveis: preencha esse personagem com a sua vida. Não há muitos dados sobre o que há na tela para facilitar sua transposição para a realidade do filme. Seu drama pessoal e sua visão idealizada do amor vão se encaixar. E, depois de tantas desiluções, você poderá viver uma grande história de amor. Pelo menos por algumas horas.
[Filmes como Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle, 1993), no qual Meg Ryan tem uma boa profissão, amizades sólidas, já está num relacionamento -chato, mas não nociso; ou seja, tem algo a perder ao procurar outro parceiro- e mira Tom Hanks de maneira afetuosa e com admiração, são raros].Ora, esse tipo de filme enaltece a relação, mas esquece dos personagens. E ninguém se relaciona com o relacionamento, mas sim com o outro. Gosto tanto de você que quero ter um relacionamento contigo. Quando mais especial for, mais quero ampliar nossos laços.
O problema é que muitos filmes são voltados para solitários ou para os desiludidos. Na prática, já desistiram do amor. São pessoas carentes, nada atraentes. Mas no campo dos sonhos, o amor ainda pulsa. Em Reality Bites (1994) Ethan Hawke consola uma desiludida Winona Ryder. Ela acredita que, aos 20 e poucos anos, já teria vitórias no currículo. Hawke diz que, nessa idade, a única coisa que ela precisa é saber quem é. Pois é. Na prática, almejamos o outro, sem saber muito bem quem somos.
Aí, a equação é inversa: há muito tempo almejo um relacionamento. Há uma vaga a ser preenchida aqui. E o processo de seleção é frouxo, como um banco que faz empréstimos sem analisar os riscos ou mesmo desconhece o que está financiando. Mas eu preciso de alguém. Urgentemente.
A conta não fecha: não se trata apenas de ocupar espaço, o vazio é sentimental. O problema surge depois: não era esse o modelo que eu queria. Como devolver não é uma opção para mim (posso ficar novamente sem nada), preciso mudá-lo para atender minhas espectativas. Que, de antemão, nem eu, tampouco ele, conheciam.
Mesmo nas comédias românticas mais delicadas, como Atraídos Pelo Destino (It Could Happen to You, 1994), há essa necessidade de ser resgatado pelo outro. É sempre difícil amar: encontrei a pessoa certa, mas ela não está disponível.
Quando surge o final feliz, o resultado soa forçado, deslocado. Ou então os últimos momentos do filme servem para cortar o barato dos corações apaixonados: prepare o lenço, pois um dos amantes vai embora. Alguns, definitivamente.
A tradição dos amores impossíveis é anterior ao cinema. Na literatura, as grandes histórias de amor são assim. Muitos desses textos foram adaptados para o cinema, inclusive. Entretanto, o que os romances cinematográficos -que apostam no antagonismo entre os afetos de homens e mulheres- fazem é o usar o sentimento como um jogo de poder, um acerto de contas.
Felizmente, o cenário é diferente em muitos filmes românticos recentes: Os Nomes do Amor, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), Os Agentes do Destino, Toda Forma de Amor etc. Neles, o olhar que predomina é o do homem romântico. Em Blue Valentine, Dean até questiona sobre o que homens e mulheres procuram no parceiro.
As mulheres amadas por eles são luminosas, cheias de vida, engraçadas, espontâneas, boas na cama… Enfim, são realmente apaixonantes. São tão boas que inspiram: sou destemido e mais feliz quando estou ao seu lado. Claro, é outra idealização, mas pelo menos é mais generoso. Ademais, temos contato com outras sensibilidades. Se é bom ou ruim, a escolha é de cada um. Mas pelo menos somos apresentados a possibilidades diversas.
[Mulheres geralmente reclamam que o ímpeto romântico dos homens acaba com o tempo. Com o passar dos anos, eles se acomodam. Ficam barrigudos e pouco atenciosos. Por outro lado... Essa crítica cabe apenas aos homens? Não seria algo a ser analisado individualmente, para além de gêneros? Quem toma discutir a relação como prática para apenas destilar seu descontentamento transforma a iniciativa de cobrar primeiro num escudo para não ser questionada. Já vi tantos casais brigando em público, pelos mais tolos dos motivos. É uma relação degastada. Mas ambos utilizam, automaticamente, apelidos carinhosos. É a força do hábito, mesmo motivo que justifica a continuação da relação. Qualquer coisa é melhor que a solidão para quem não suporta a própria companhia]Os homens apaixonados do cinema pregam que querem ficar com essa nova parceira, apesar das imperfeições dela: não é que elas não existam; suas qualidades são muito maiores do que seus tropeços. Quando olho para você, vejo o todo, mas valorizo o que merece ser elevado. Cobro a minha mudança: quero ser melhor para você. Nesse processo, me transformo. Você também evolui, até porque surgem novos desafios. Com isso, criamos, juntamente, algo único. Só nosso.
***
Um plano para procurar afetos? No maravilhoso Antes do amanhecer (Before Sunrise, 1995), há o básico: duas pessoas conversando. Eles estão se conhecendo e se maravilhando com o que encontram. São criativos, é claro, todo mundo quer mostrar o melhor de si, mas sem jogos: é difícil sustentar máscaras. O filme, que já ganhou uma continuação, o genial Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004), pode receber nova sequência.
Nas belas histórias de amor, é difícil dizer adeus a quem se ama. Resta saber se vale a pena continuar. Jesse e Celine, essa dúvida não é apenas de vocês.
Atualização: 11/12/2011. Texto alterado em verde.
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)

