Amor virtual, Fabrício Carpinejar

[…] Acredito em amor virtual. Pois nada é mais expansivo e verdadeiro do que se conhecer pela linguagem. Nada é mais íntimo e pessoal do que se doar pela linguagem.

Não serei convencido da frieza do relacionamento na web, da articulação de fachadas e pseudônimos, da ironia e dos subterfúgios denunciados nos chats.

[…] Na correspondência, há a esperança de ser amado e de entreter as dores. A esperança aceita tudo, transforma todo troco em investimento.

[…] Não há o julgamento pelas aparências (que se assemelha a uma execução sumária), mas o julgamento em função do que se imagina ser, do que se deseja, do que se acredita.

São raros os momentos em que se pode fechar os olhos para adivinhar.

Adivinhar é delicioso – é se dedicar com intensidade às impressões mais do que aos fatos.

[…] Não conheço paixão que não ofereça mais do que foi pedido. Quem reclamava da ausência de preliminares deve comemorar o amorvirtual. Nunca se teve tanta preliminar nas relações, rodeios, educação.

Fica-se excitado por falar. Devolve-se à fala seu poder encantatório de persuadir.

Afora o espaço democrático: um conversa e o outro responde. Findou o temporal de um perguntar para outro fingir que está ouvindo.

No amor virtual, a linguagem é o corpo.

[…] Amor virtual é conhecer primeiro a letra, para depois conhecer a voz.

A letra é o quarto da voz.