Antena sentimental

Trecho do texto “Melodia sentimental” (exclusivo para assinantes do UOL ou do jornal Folha de S. Paulo), da neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Uma forma distinta -menos emocional, mais científica- de explicar como nos relacionamos com a música.

Por que a música tem tamanho poder de evocar emoções e até de trazê-las à tona anos depois, mesmo fora de contexto? Acho que a resposta está na função da música mais fundamental que o cérebro é capaz de produzir: a melodia da voz.
É verdade que a produção da fala costuma ser função de uma área do lado esquerdo do cérebro, que seleciona, ordena as palavras e as pronuncia. Mas, se ele trabalhasse sozinho, sem o lado direito, nossa fala seria monocórdica, sem inflexão alguma -e sem informação sobre nosso estado interior. Todo o conteúdo emocional da fala é dado pela melodia da voz, chamada prosódia, acrescentada às palavras pela região equivalente no lado direito do cérebro (e não, isso não significa que o lado direito seja emocional e o esquerdo, racional).
Para se convencer, experimente falar em voz alta a mesma frase -”Venha aqui, por favor”- com duas entonações: um convite carinhoso e uma ordem ríspida. A diferença é audível. Agora, sussurre a mesma frase das duas maneiras. Ouviu a diferença? Aposto que não. Sem a prosódia, a fala não transmite emoção alguma.
Acontece que toda melodia, falada, cantada, sintetizada ou orquestrada, ativa os mesmos circuitos que o cérebro emprega para gerar e interpretar a melodia que dá o conteúdo emocional da fala. O resultado é o contágio emocional, que comunica o estado de espírito representado pela melodia -e ainda é capaz de deixar memórias marcantes associadas a ela. Por isso, melodias, além de memoráveis, podem ser tristes, alegres, vibrantes, ríspidas, saudosas.

Foto do flickr de halig halie