Cobrança de conteúdo online

Na semana passada, a indústria da informação buscou novamente proteger sua atuação. A Declaração de Hamburgo apóia a internet, mas também defende a aprovação de leis para proteção dos direitos de propriedade intelectual. São contra, por exemplo, os agregadores de conteúdo.

O magnata da informação, Rupert Murdoch, quer tirar do Google as notícias de suas publicações.

É um tiro no pé, visto que compartilhar notícias é um dos hábitos mais recorrentes em redes sociais.  O Twitter, por exemplo, é utilizado pelos brasileiros para se manterem atualizados. Biz Stone, um dos criadores do Twitter, já havia definido o serviço de mensagens curtas como uma rede de informação. Um estudo da agência de notícias AP também foi pelo mesmo caminho.

Fica difícil cobrar por algo abundante, o que é o caso atual da informação. Por isso, muitos serviços não querem deter o controle da informação, mas sim sua organização. Caso do Google, o trabalho de curadoria feito em blogs e no Twitter etc. Em tempos de economia da atenção, outras características são mais valiosas, como tempo, atenção e reputação dos agentes.

Até porque partilhar é um dos preceitos da internet. Todavia, muitas pessoas compartilham informações online gratuitamente, mas não necessariamente são vistas como canais de comunicação. Uma foto no Flickr, um vídeo no YouTube podem ser informações a serem “descobertas”. Se há abundância de dados, um trabalho de curadoria, de estipular qual a informação mais relevante, contextualizar esse conhecimento, vira diferencial.

Se a produção de conteúdo é cara, propostas novas, muitas vezes calcadas em projetos coletivos, oferecem novos caminhos. Como no caso do conceito de beatblogging, em que comunicadores atuam em segmentos específicos, e a comunidade lhe dá apoio na produção dessa informação.

Para Bill Gurley, o Google está inaugurando um novo modelo, em que os serviços são ofertados “mais baratos que a gratuidade“.

Mas essa postura é possível porque o Google tem um serviço comercial muito popular, os links patrocinados (por sinal, um monopólio). É daí que vem grande parte do seu faturamento (97%). Dele também vem a verba que financia os demais projetos. É por isso que a empresa procura diversificar suas fontes de renda.

Ademais, quando mais as pessoas usarem seus recursos, mais o Google pode embutir outros produtos, como os links patrocinados. É algo similar ao que ocorre com a TV aberta: a programação é gratuita, que é financiada pelo anúncios.

Além disso, se a TV foi construída em torno de um plano de negócios claro, alicerçada em propaganda, o mesmo não ocorre nas mídias sociais. Aqui, o usuário comum se apropriou primeiramente dessas ferramentas. E as empresas, muitas vezes, tem de traçar inúmeras táticas para também participar (há quem veja uma mudança nesse cenário. E tem até data: em 2010, a web 2.0 será menos social e mais corporativa)

Ademais, muitos sites não geram lucro. Sua existência é possível porque investidores apoiam essas iniciativas. Enquanto esses serviços aumentam sua popularidade, vão buscando formas de capitalizar sua atuação.

O problema da monetização online de conteúdo é que o modelo anterior está se deteriorando muito rapidamente, e não surgiu um novo adequado (nem acredito que haverá apenas um, da mesma forma que hoje existe uma pluralidade de modelos). Por isso, há um anseio por respostas milagrosas e rápidas. Ademais, a indústria da informação é encarada com ceticismo sobre seu futuro. Warren Buffett, um dos grandes investidores do mundo, já disse que não comprará ações de empresas jornalísticas.

Uma das táticas mais empregadas é o modelo freemium. Acredito que pode ser adequada para um determinado público, que busca apronfudamento da informação. São pessoas cuja atuação dependem dos desdobramentos de certos acontecimentos, de projeções que antevêem cenários. Como empresários que precisam de análises sobre a economia. Tenho dúvidas se todas as pessoas buscam isso. Na verdade, muitos se interessam por nichos, e nesse caso há informação de qualidade gratuita. Além disso, se consome muito conteúdo online, é fato. Todavia, muitas vezes trata-se de uma informação “crua”, o dado não lapidado em forma de notícia, com lead, pluralidade de pontos de vista etc.

Ademais, na internet, uma empresa de comunicação específica não compete apenas no seu setor, mas sim como toda a indústria da informação, que divulga conteúdo online. Exemplo: um emissora de TV aberta tem poucos canais competindo pela atenção do público através do aparelho televisivo. Na internet, a competição é total.

Ademais, o site de um jornal impresso, por exemplo, não divulga apenas conteúdo em texto, mas também produz vídeos, programas de áudio etc. Ou seja, a competição ocorre através da hipermídia. Citei apenas a indústria da informação, os meios tradicionais. Há também as informações produzidas e distribuídas via mídias sociais. Então, como cobrar por algo tão abundante? Difícil haver exclusividade, até porque uma matéria publicada num site de conteúdo fechado pode ser copiada e colada em um site com acesso gratuito.

Estamos passando da pull media (quando a notícia chega até você, mesmo sem buscar por ela) para a push media (quando procuramos notícias específicas).

Também se fala muito em não cobrar pelo produto, mas sim pelo serviço. Algo similar ao que ocorre com as empresas de telefonia móvel: o aparelho sai de graça, ou subsidiado, mas a conta e a carência do serviço, não. Será que esse modelo pode ser replicável por pequenas empresas, ou apenas conglomerados com grande escala? E no caso de profissionais criativos, em que o serviço é também o produto?

Jeff Jarvis, autor do livro O que a Google Faria?, se mostra reticente sobre o futuro de certas profissões. Para ele, na web cortamos intermediários. Por exemplo: posso vender meus produtos em sites de leilão, mas sem pagar muito pelo serviço.

Micropagamentos, freemium… Acredito que o momento é ideal para experimentação, testar novos modelos. Já há empresas online que conseguem obter o equilíbrio financeiro, como o Facebook e o Huffington Post. E não haverá apenas um caminho a trilhar.

De toda forma, há empresas do indústria da informação que ainda estão muito apegadas à estrutura atual. Pior: há empresas que entraram nessa fase de transição com grandes problemas econômicos, o que dificulda ainda mais o processo. São como grandes clubes brasileiros de futebol: possuem grandeza e popularidade, mas escolhas anteriores erradas atrapalham seu futuro.

Veja também

Como os jornais estão ganhando dinheiro on-line
Quem paga a conta na economia digital?
O futuro gratuito de Mister Anderson

Imagem via Flickr de hegtor