Credibilidade: independência (ou morte)
Hoje, poucas pessoas da mídia analisam tão bem a mídia quanto o comediante Jon Stewart. No vídeo, ele defende que há uma distinção entre visão política e ser ativista. Muitas publicações podem optar por determinada ideologia, mas isso não “contamina” sua atividade, até porque sua missão não é divulgar uma doutrina específica, mas sim informar.
Pessoas como ele fazem falta. Stewart oferece insights interessantes embalados num discurso de fácil acesso (e divertido). Aliás, quem foi que criou essa cartilha que diz que o jornalismo tem de ser tão sisudo? Há formatos híbridos que misturam jornalismo e humor eficientemente.
Muitos até tentam fazer sátira política, se propõem a fazer um humor crítico, mas na verdade apenas tiram “sarro” dos políticos. Não abordam, necessariamente, assuntos. Em entrevistas, empregam um jogo de palavras “bem sacado” que consegue pegar alguns desprevenidos. Os políticos brasileiros se levam muito a sério. Por outro lado, não dispensam uma aparição nos meios de comunicação. Disso podem surgir algumas oportunidades para os militantes do riso. Nos EUA, é muito mais fácil encontrar políticos experientes encarando humoristas em talk shows ou mesmo participando de programas humorísticos.
Por aqui, o que se vê são pegadinhas retóricas, usadas por justiceiros “engraçados” que exigem respostas de seus interlocutores. Não abordam o ridículo da realidade; a atualidade é apenas uma oportunidade para provocar momentos toscos. Tudo é “espontâneo”: políticos são instados a responder questões previamente elaboradas pelos humoristas. Curiosamente, poucas esquetes, material elaborado e concebido em estúdio, são realizados. Pode ser pior, como pensar que ser contestador é soltar frases constrangedoras (sem graça).
Não que o cenário seja tão ruim assim. Se o telejornalismo tem um casal símbolo, o humor também. No Brasil, gosto do trabalho da Dani Calabresa, no Furo MTV. E o Marcelo Adnet também provoca bons risos.
Quem conta um conto…
Essa falta de humor e a polarização política é compartilhada pelo público. O colunista José Simão, que está lançando um livro com suas tiradas, diz que só sofreu três processos durante sua longa carreira. Por outro lado, Simão também revela que há grupos que não tem humor algum.
A patrulha do politicamente correto é uma praga, assim como o gaiato que apenas gostar de brincar com os outros, mas não aceita a pilhéria dos demais. Ou o chato que, ao ser criticado, aponta que está sendo censurado.
As deformações são várias. Lembro-me da eleição mais recente no Brasil. Muitos criticavam certas publicações porque estariam fazendo uma campanha enviesada: apoiava um candidato, em detrimento de outro. Não parecia uma queixa contra esse tipo de postura, mas sim porque o apoio não recaía sobre o candidato que apoiavam. Não pleiteavam uma cobertura apartidária, posto que só olhavam para o outro lado, e não para toda mídia. A coletividade não correspondia ao bem comum, mas sim a um agrupamento específico: publicações que acolhiam candidatos representativos de determinados pontos de vista -ou seja, beneficiavam interesses particulares- não eram alvo do mesmo denuncismo. Esquecem o que pregava Aristóteles, que defendia que toda boa política visa… o bem comum.
Esse discurso inflamado é sedutor. Profissionais que são vistos como bastiões da liberdade de expressão muitas vezes apenas apontam sua verve analítica para um alvo específico. Geralmente, seu ex-empregador de longa data. Curiosamente, seu espírito de justiça não consegue mirar o mais próximo, os excessos das empresas em que trabalham.
Objetividade é o caminho? Isso me lembra um ditado chinês: “há três versões para um fato; a minha, a sua e a verdadeira“. Ademais, um texto em que o autor não se envolva não me atrai. O distanciamento resulta numa escrita insossa, sem vida. Uma mera descrição sem profundidade e personalidade. Ir para o extremo oposto também é nocivo: alguém que edita e/ou distorce a realidade até se encaixar no discurso que quer difundir. Ou que aborda um assunto com uma visão já concebida.
É uma questão de bom senso. E de perseguir princípios éticos, como a utópica isenção. Algo que não deve ser descartado porque parece ser inalcançável; serve como ponto de vista que nos guia, uma meta que merece ser buscada. Assim como almejar evoluir na vida. Você sabe que vai tropeçar no caminho. Mesmo no final, sabe que não atingirá a perfeição. Isso não implica que desistirá de se cobrar e se esforçar para ser um ser humano melhor.
(Imagine o contrário; adotar, desde o início, um comportamento errático, pois sabe que, mesmo com afinco, o resultado será incompleto? A perfeição não é possível de ser alcançada, do que vale o esforço, então? Que tipo de resultado teria se sua postura fosse essa?)
Carregamos uma ampla bagagem (cultural, social etc.). Isso tudo influencia as diversas facetas de nossas vidas. A sua conduta profissional não seria uma excessão. Por isso, o comunicador não deve buscar a imparcialidade, mas sim independência para realizar seu trabalho. Seja autônomo ou empregado de uma empresa.
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![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)