Falar em alta e baixa cultura ainda faz sentido?

“O pendor para questionar limites entre alta e baixa cultura – que já não fazem nenhum sentido (se é que já fizeram) – é antigo”, explica o escritor Joca Reiners Terron. Infelizmente, essa dicotomia equivocada ainda persiste.

Confunde-se muitas vezes o estilo da obra (livro, filme, HQ etc.) com a qualidade do produto. Livros, não raro, são visto como alta cultura. Depois, viriam outras manifestações artísticas. Num mundo em que se fala de narrativa transmídia, soa anacrônico pensar assim.

Em 1997, a Dreamworks lançou o desenho animado O Príncipe do Egito. Questionado porque a empresa estava lançando uma obra com temática religiosa, o produtor Jeffrey Katzenberg explicou que animação não é um gênero, mas sim um estilo narrativo. Por isso, pode-se contar qualquer tipo de história. Se achássemos que desenho animado é coisa de criança, não chegaríamos a lançar obras como Wall-e, Valsa com Bashir etc.

O mesmo ocorre com as HQs. Há tempos os temas se expandiram, não versam apenas sobre “heróis”. E mesmo esses estão inseridos, muitas vezes, em tramas adultas. De toda forma, a linguagem das HQs é usada para reportagens, contar histórias densas… Maus, em que Art Spiegelman narra a história de seu pai durante a segunda guerra mundial, é um exemplo. Levou o prestigiado prêmio Pulitzer. Já Wathcmen foi escolhida pela revista Time como uma das 100 melhores obras literárias em língua inglesa desde 1923.

Hoje, mais do que nunca, as narrativas dialogam. As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, livro do escritor norte-americano Michael Chabon sobre dois amigos que criam um herói para combater nazistas levou, em 2001, o prêmio Pulitzer de ficção. No ano seguinte, o autor colaborou no roteiro de Homem Aranha 2.

De uns tempos para cá, é possível manter gostos, hábitos muitas vezes ligados à adolescência e à infância. Antigamente, isso seria visto como sinal de imaturidade. O estilo de se vestir, o que escutar, isso tudo variava de acordo com a faixa etária.

Jogos eletrônicos, por exemplo, tinham de ficar no passado. O mesmo valia para a música. Já vi muitos artistas afirmando que rock seria um gênero jovem. Bobagem. Assim como os títulos que jogávamos em nossos videogames evoluíram, o mesmo pode acontecer com outras formas de entretenimento.

No final das contas, a verdadeira distinção é entre boa e má narrativa.