Lost: o longo caminho até aqui [outros seriados norte-americanos que inovaram]

Lost talvez seja o programa que todo roteirista sonhou trabalhar. As ideias mais inventivas, lúdicas, não foram rechaçadas por serem inusitadas (“o público não está preparado para isso”), mas sim acolhidas.

Entretanto, Lost também estava no lugar certo, no momento exato:  é tido como a própria mudança, quando na verdade representa o amadurecimento de tendências que já estavam em desenvolvimento.

Quando Lost foi lançado, a internet já era bastante popular. Era mais fácil baixar episódios online. Relacionar-se em rede já havia se tornado algo comum. Era mais fácil encontrar fãs que partilham dos mesmos interesses. O hiato de exibição em relação aos EUA era preenchido pelos próprios fãs, que compartilhavam e traduziam os episódios. Novamente, não é algo novo. Nos anos 1990, fãs de Arquivo X trocavam fitas VHS com episódios inéditos, geralmente via encomenda dos EUA. Muitas vezes, organizavam encontros em que esses episódios eram exibidos. Isso ocorreu muitos antes da popularização dos programas P2P ou de virar tradição o lançamento oficial dos boxes com temporadas completas. Aliás, muitos preferem assistir séries assim, de uma vez, e não acompanhar a transmissão na TV.

Mas essa é apenas uma das características que Lost “herdou” de outros programas.  Fan made, transmídia… Outros produtos culturais já tinham realizado isso. Lost, além de usar vários elementos inovadores juntos, levou essas práticas a outro nível.

(Ao contrário de filmes e livros, um seriado, por ser uma obra não acabada, atualmente apresenta melhores resultados em termos de criação aberta, adota com mais eficiência a narrativa transmídia. Isso porque não expande o universo narrativo já concluído em outro meio, muitas vezes criado sem pensar na convergência entre as mídias. O desenvolvimento ocorre durante a própria exibição. Claro, livros e filmes podem fazer parte de uma saga. Todavia, os hiatos podem ser longos demais e a obra em si ser consumida em pouco tempo. Os apreciadores poderiam preencher essa lacuna. Todavia, as criações dos fãs serviriam mais para aumentar a devoção de um produto cultural que não vai ganhar novos desdobramentos “oficiais”. Ao contrário de um seriado, cujas temporadas exibem vários episódios anualmente. Além disso, os produtores de cinema e os editores de livros geralmente são mais críticos em relação a esses desdobramentos não licenciados. Preferem criações pagas, como jogos eletrônicos.)

O suspense seduz, atrai e atiça a curiosidade. Mas também decepciona, caso a solução seja constantemente protelada ou as respostas apresentadas sejam fracas. Criada pelo cultuado cineasta David Lynch, Twin Peaks teve uma primeira temporada de sucesso. Na segunda, a queda de audiência foi tão grande que o programa foi cancelado. Twin Peaks foi um dos primeiros programas a tentar buscar, no início dos anos 1990, novas fórmulas na TV norte-americana. Foi o desbravador para outras iniciativas. Se outras tramas ofereciam episódios com começo, meio e fim, Twin Peaks exigia dos telespectadores fidelidade. É preciso ver o todo para que as partes façam sentido. Ou ganhem novas leituras.

(Mais recentemente, Heroes, uma das várias séries apontadas como sucessoras de Lost, optou por uma mistura de seriado com minisérie, em que um arco narrativo apresenta começo, meio e fim na mesma temporada. Um problema novo é apresentado a cada temporada, encontrando sua solução no final dessa safra de episódios).

Nos anos 1990, outras séries buscaram novos temas, tatearam novas propostas narrativas. Seinfeld não era mais um programa humorístico sobre amigos ou a dinâmica de uma família. A série ficou conhecida como a sitcom sobre o nada. A HBO lançou vários seriados adultos (Oz, Sopranos etc.). O sucesso desses programas pavimentou o surgimento de outros seriados. Ademais, a evolução e baratamento dos efeitos especiais tornou mais fácil algumas temáticas ganharem a tela pequena.

Buffy também representou um sopro de criatividade. Personagens principais (uma “irmã” da protagonista) foram introduzidas na trama de forma abrupta, como se sempre tivessem existido, o que desnorteava a audiência. A explicação só viria depois. O seriado da caça-vampiros também limou personagens queridos, transmitiu episódio musical e misturou seres fantásticos num mesmo show. Hoje pode parecer padrão encontrar seres como lobisomens, vampiros, fantastas etc. na mesma trama, vide True Blood e Crepúsculo. Todavia, até Buffy isso não era comum. Aliás, Buffy acabou apenas na TV. A saga da caça-vampiros continua nos quadrinhos.

Outro seriado  também foi responsável pelos novos rumos da TV: Arquivo X. O programa, durante bom tempo, foi bem-sucedido. Todavia, para ficar tanto tempo no ar, adiou demais a resolução do mistério, usou elementos de novela para continuar no ar (as personagens principais vão ficar juntas?) e ainda continuou por mais duas temporadas mesmo quando a personagem principal abandonou o show.

De toda forma, Arquivo X foi um seriado à frente do seu tempo. Conseguiu ser um fenômeno pop, e não apenas um sucesso de nicho. Dialogava com uma plateia ampla, mesmo oferecendo um cardápio mais rebuscado. Ou seja, conseguiu manter a atenção do que seria seu público primário, sem alienar uma audiência mais plural. Ganhou inclusive a grande tela. Durante sua existência, muitos seriados conseguem até ser tema de telefilmes. Arquivo X foi um dos poucos a ganhar um longa nos cinemas enquanto existia também na TV.

Penso, muitas vezes, como seria se alguns desses programas tivessem vivido seu período áureo na época da internet. Seriam debatidos à exaustão, ganhariam rumos paralelos criados pelos fãs?

Esses são apenas alguns exemplos (recentes) da indústria cultural. Há vários outros seriados inovadores, muitos deles não conseguiram trilhar um caminho de sucesso. Mais importante: deve ser apenas o começo. Daqui a pouco, acredito, mais experiências surgirão na web, via produtores independentes.