Lost: the end
Chegou o momento de se despedir. Melhor escrever antes da exibição do último episódio (hoje, nos EUA; próxima terça, no Brasil), para não incorrer no erro de julgar o legado do seriado baseado apenas nas respostas oferecidas no final. Para quem procura uma resolução definitiva – no estilo quem matou Odete Roitman- o final pode ser decepcionante. Possivelmente deve seguir os passos do aclamado seriado Sopranos. Mesmo sendo um programa mais linear que Lost, não se preocupou em oferecer todas as respostas. Mais isso é apenas uma conjectura, mais uma entre tantas feitas por fãs.
Uma das características do jornalismo cultural é tentar explicar a obra analisada, apresentá-la para o público que não a conhece. Lost dificulta isso. Sua trama cheia de reentrâncias, de caminhos não lineares transforma essa tarefa num feito bastante improvável. Ademais, poderia ter resultado negativo por simplificar a proposta do programa: o emaranhado de tramas é um dos trunfos de Lost. Ademais, poderia revelar fatos importantes do seriado.
Lost estava no lugar certo, no momento adequado. Nos EUA, a série foi exibida na ABC, canal que enfrentava grave crise de audiência. Quando se está por baixo, jogadas inovadoras têm melhor acolhida. Em muitos casos de sucesso, o medo do fracasso vira abrigo para continuar no mesmo.
No caso da ABC, o canal precisava renovar sua programação. No mesmo ano, a emissora também lançou Desperate Housewives. Outro sucesso. Entretanto, antes de encontrar acolhida na ABC, havia sido rejeitada até por pequenos canais de TV a cabo.
(De lá para cá, a ABC coleciona vários sucessos, o que deveria incentivar as empresas de comunicação e entretenimento a arriscarem mais)
Nas primeiras temporadas de Lost, mais mistérios que explicações. Na verdade, com o intuito de prolongar a trama, o seriado muitas vezes parecia esticado, novos personagens que nada acrescentaram ao programa ganhavam destaque. A série, por vezes, parecia apenas querer ganhar tempo. Com o final anunciado há três anos, provavelmente devido à erosão da audiência, as temporadas ficaram mais ágeis, menos episódios eram transmitidos. Eles passaram a ser exibidos em sequência, sem muitas repetições. Na última safra, apenas um episódio foi reprisado.
Se a trama fosse exibida na TV paga, talvez Lost ficasse livre de tantas cobranças por audiência. Ademais, menos episódios seriam produzidos por temporada. Ou seja, ganharia em ritmo. O público veria menos embromação. Por outro lado, não tornaria possível testar novas ideias numa emissora aberta. Lost provou que o grande público está preparado para novas propostas narrativas.
(Aliás, falar de queda de audiência é impreciso. A maioria dos programas perde público com o tempo. Ademais, a diminuição do número de telespectadores é generalizada, já que a internet “rouba” audiência de outros meios)
Alguns podem dizer que a série solucionava os mistérios criados com novos desdobramentos pouco elucidativos. O seriado emulava as bonecas russas matrioshka em que, ao abri-las, novas bonecas vão surgindo. Todavia, poucos seriados conseguiram “enrolar” o público de forma tão criativa. Exemplo: na quinta temporada, [spoiler] alguns integrantes conseguem sair da ilha. Os que “ficaram” viajaram no tempo. No final, os dois grupos estavam novamente juntos. De certa forma, retornam ao ponto que estavam no começo dessa temporada. Mas foi uma viagem divertida, que prendeu a atenção.
O tempo de “enrolação” também foi útil para a narrativa. Se a trama pareceu arrastada em alguns momentos, o tempo a mais serviu para que a plateia se identificasse com os personagens, acompanhasse sua evolução. Com isso, as baixas ao longo do caminho foram mais sentidas, porque foram ceifados da trama personagens populares. Em Lost, morria “gente importante”. Ademais, as personagens não eram unidimensionais. A diferença entre o bem e o mal não era tão clara.
Poucos programas ousaram tanto. O seriado não utilizou artifícios simples e óbvios, como dizer que tudo não passou de um sonho. Mesmo as coincidências, uma dos recursos mais pobres para amarrar narrativas, em Lost fez sentido: as peças do quebra-cabeça faziam parte um plano maior.
Claro, a trajetória não ocorreu sem sobressaltos. Na sexta temporada, [spoiler] os “novos”outros, apresentados no começo dessa temporada, não acrescentaram muito. Também foi criada uma realidade alternativa. O seriado se desenvolveu em duas tramas. O criativo recurso não foi bem utilizado. No começo, a realidade paralela tomava grande parte dos episódios. Pouco atraentes, renderam alguns dos piores momentos da série. Como os episódios protagonizados por Kate e Ben. Foram ruins e não acrescentaram nada significativo à trama. Com o tempo, essa realidade alternativa ficou mais interessante. A trama “atual” ganhou também mais destaque, ocupando a maior parte do tempo dos episódios.
(É importante evitar o sentimento de que Lost criou tudo, que antes não existia criatividade na TV. Exemplo: outros programas já haviam “brincado” recentemente com o tempo. Early Edition era calcado nisso; J.J. Abrams, um dos criadores de Lost, já tinha utilizado o mesmo artifício num drama sobre jovens, Felicity).
Há também os furos de roteiro. Todavia, o que acho mais grave é a incoerência dos personagens. Se muitos eram carismáticos, eles também eram responsáveis por atitudes no mínimo estranhas. Na quinta temporada, [spoiler] a maioria das personagens se voltou contra Jack. Os motivos eram fúteis. Muitos nem foram explicados. Sayid, um assassino profissional, tenta matar o jovem Ben com apenas um tiro. Quando os demais retornam à ilha, na quinta temporada, não são feitas perguntas sensatas e óbvias. Tipo: “ei, nós voltamos porque disseram que vocês corriam perigo, o que está acontecendo?”. Para quem ficou na ilha, o mundo exterior pareceu pouco atrativo, já que não questionaram nada sobre ele. Nem os fatos mais mundanos, como resultados de torneios esportivos, nem desdobramentos com os quais tinham contato emocional (“Onde está Aaron”?), despertaram a curiosidade deles. Na morte de Jin e Sun, uma trama que se arrastou, nenhum sugere ao outro: “vá cuidar da nossa filha, ela deve ser criada por pelo menos um de nós”. E no episódio em que Jacob se mostra para os candidatos, é de estranhar a falta de criatividade e curiosidade das perguntas feitas. Faltaram questionamentos óbvios, tais como “o que é a ilha?”, “tá, você disse que eu sou como você agora, mas o que isso quer dizer na prática?”, “o que é a fumaça?” etc. As respostas de Jacob também foram demasiadas desinteressantes. Os motivos porque escolheu essas pessoas, porque Kate foi cortada da disputa…
Esses são apenas alguns exemplos. No plano geral, outros equívocos foram mais significativos. Personagens que pareceriam muito importantes foram abandonados. Novos caminhos da narrativa se mostram becos sem saída (seriam pistas falsas?). Ademais, até determinado ponto, a trama tinha ares científicos. Quando o programa entrou na sua reta final, as respostas começaram a ser mais fantasiosas, místicas.
Lost pode inaugurar uma nova fase na TV? Os mais otimistas podem dizer que sim. Primeiro, por mostrar que é possível optar por caminhos narrativos diferentes, mesmo em meios mainstream. Segundo, porque aprendeu com as experiências passadas. Anunciou, três temporadas antes, quando iria acabar. A mensagem foi clara: esperem mais alguns capítulos, há uma conclusão para tudo isso. Se Arquivo X tinha apenas um elemento MacGuffin, o fator mistério que prende a atenção dos telespectadores, Lost lançava vários. Havia a grande pergunta (“o que é a ilha?”), mas novos mistérios também prenderam a atenção do público.
No final das temporadas, o programa não apresentava um desfecho, mas sim jogava uma nova dúvida no ar (eles saíram da ilha? o plano de retornar ao presente deu certo?). Algo que lembrava os finais de temporada de Friends (quem está grávida? qual o futuro do casamento de Ross?).
Outros podem ser mais céticos e analisar o seriado como um evento único. Muitos programas já tentaram suceder Lost (Jericho, FlashForward), mas malograram. Como expliquei acima, são vários os fatores que contribuíram para a série ser o que é. Muito deles dificilmente poderiam ser planejados. Não se trata de uma fábrica criativa em que surge Pokemon e, havendo demanda, outro bebe da mesma fonte (Digimon) e por aí vai.
[Atualização: Aliás, o próximo fenômeno precisa vir da TV? Essa análise soa conservadora. Lost não dialogou com tantos meios, porque sua influência não poderia ecoar em outras artes? Se no caso de Lost o "epicentro" narrativo foi a TV, porque outra criação não poderia conduzir seu eixo narrativo a partir da internet, o que poderia suscitar novos desdobramentos, como a criação coletiva? Ou mesmo já nascer multimídia, sem possuir um foco narrativo em apenas um meio de comunicação?Por mais que identifique problemas na condução do programa, o quadro geral é mais importante do que os tropeços ocasionais. Fico imaginando: e agora, o que vem depois? Lost não é apenas um fenômeno pop, mas sim um referencial de narrativa transmídia, de novas possibilidades ficcionais. Assim como um ótimo disco de rock que, ao mesmo tempo que influencia jovens músicos, que podem emular eficientemente essa obra inicial, também enseja a criação de obras inovadoras. Sua influência ecoa para além de seu tempo. Lost deve se tornar uma obra importante não apenas para o consumidor final de cultura, mas principalmente para os criativos.]
Voltando a 23 de maio de 2010. Deixando de lado devaneios sobre o futuro, o importante foi própria jornada. “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar” (Antonio Machado). 114 capítulos depois, Lost chega ao fim (será?). Mais de 100 horas de programa encontram sua resolução. A ansiedade de descobrir os mistérios da iha dará lugar à angústia de não escutar mais Previously on Lost…

O último episódio de Lost [The End] « C2
May 31, 2010 @ 16:15:11
[...] último episódio de Lost [The End] E o seriado, como escrevi antes, acabou sem explicar tudo. Na verdade, propôs novos [...]
Pagando para ver: o drama da tv paga « C2
Jul 07, 2010 @ 11:30:00
[...] também bons exemplos. Como Lost, cujo episódio final foi exibido no Brasil com dois dias de diferença em relação aos EUA. No [...]