Menos quer dizer mais: Irreversível

Logo após assistir ao filme “Irreversível” (Irréversible, França, 2002), me veio à mente uma declaração de Susan Sarandon, explicando porque é contra a pena de morte: “nós temos de combater a violência de forma não violenta“. “Irreversível” é uma película que causa reação física em quem assiste. Não tanto por causa de suas qualidades, mas por seus excessos.

Da minha feita, os filmes que são mais bem-sucedidos em relação a chocar são os que transferem o horror para os espectadores, que não mostram, sugerem (caso de “Seven”). Os que mostram tudo causam repulsa, nojo até. É por isso que Win Wenders fez “O Fim da Violência” (The End of Violence, França, Alemanha, EUA, 1997), um filme que fala sobre a violência, mas sem ser violento.

Acho incoerente um filme que pretende ser uma crítica à violência (nem sei se esse é o caso de “Irreversível”), e abusa dela, como “Assassinos por Natureza”. E nem adianta afirmar em defesa desse tipo de cinema que se trata de violência estilizada. É até pior dessa forma, porque banaliza um assunto sério.

Sem falar do sexo mostrado “em excesso”. De certa forma, o cinema francês, que sempre foi mais libertino que os demais, avança cada vez mais nesse sentido. Em 2001, o filme Intimidade (Intimacy) também se mostrava despudorado, com cenas típicas de filme pornô (com participações de astros do cinema erótico, inclusive).

Aliás, falar de um cinema francês hoje em dia soa incorreto. Não há uma tendência, nomes novos… Os grandes cineastas são os de outrora, o cinema de autor já não se faz presente. Parece que, depois de tanto criticar o cinema americano, os cineastas franceses acabaram por desenvolver a síndrome de Estocolmo, em que o seqüestrado se apaixona pelo seu algoz. Grande parte da nova safra de filmes franceses busca o modelo dos filmes americanos (no que ele tem de mais popularesco), quando o correto deveria ser procurar respostas distintas (e mais “inteligentes”). [em suma, a escola de cinema de Luc Besson!].

Voltando ao tema desse texto. O pior no caso de “Irreversível” é que ele não se restringe ao sexo, mas sim em misturá-lo com violência. Talvez o filme busque parentesco com o teatrólogo Antonin Artaud (também francês). Artaud é o inventor do “teatro da crueldade”. Segundo o cineasta Walter Salles, trata-se de uma forma de representação pensada não para reconfortar o espectador, mas para sacudi-lo.

Não sou partidário desse pensamento. Ou melhor, já fui, houve um tempo que foi necessária a sua utilização. Era preciso não apenas dizer que o rei estava nu, mas sim mostrá-lo. Os filmes mostravam uma realidade muito colorida, numa época cinza. Entretanto, hoje isso soa desnecessário.

Como bem disse Fernanda Torres, a despeito da peça “A Casa dos Budas Ditosos” (baseada no libidinoso livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro): “Não queremos o caminho do chocante, mas da aproximação, do sentimento. [...] A platéia tem que estar acesa.”

Minha regra básica para saber se um filme “murro-no-estômago” é bom ou não é tirar o conteúdo de choque que há nele. Se sobrar algo de bom, aí sim se trata de um filme realmente interessante. É o caso de “Laranja Mecânica”, “Kids”, “Trainspotting”, “Réquiem para um Sonho” etc. Do contrário, o elemento “violência” acaba sendo um fim em si, e não mais uma característica do filme.

O que torna mais complicado um veredicto definitivo sobre “Irreversível” é que tirando as cenas fortes, ainda sobra um bom filme. Faz sentido, por exemplo, o filme ser contado de trás para frente (ainda mais porque o mote do filme é: “o tempo destrói tudo”).

Entretanto, o excesso de violência não é o único senão do filme. O diretor acaba ousando demais, sem pensar num resultado “harmonioso”. Parece que, com cada frame, ele queira dizer “olha como eu sou genial”. As cenas iniciais são corrompidas pelos maneirismos de câmera. É confuso demais. Se fosse usado com comedimento, tudo bem. Mas tudo se arrasta… Acaba resultando num filme para “festival” em que o diretor flerta com o experimentalismo que não serve à narrativa.

Para mim, nem sempre uma idéia nova é uma idéia útil. Como bem diria o grande cineasta Billy Wilder, “é necessário fazer com que a platéia engula o comprimido, mas sem saber que está tomando o medicamento”. No caso de “Irreversível”, o filme se mostra um tratamento de choque. E, como todo tratamento do tipo, o paciente pode morrer antes de conseguir a cura…