O ecossistema das notícias

“[...] a mídia de hoje está de fato mais próxima de um ecossistema do mundo real, um sistema de fluxos e alimentação – completamente diferente de uma linha de comando. Essa complexidade é o que torna tudo tão interessante, está claro, mas também é o que torna tão difícil prever como será a mídia parecerá em cinco ou dez anos.”

Steven Johnson, no longo texto Imprensa “mata-cerrada” e o futuro das notícias. A tradução do artigo foi feita de forma colaborativa, com várias pessoas traduzindo partes (“adote um parágrafo”).

Para ele, ainda estamos num início de um novo processo de apuração. Por isso, ainda é cedo para dizer enfaticamente que os blogs não poderão ser utilizados para jornalismo investigativo, por exemplo. Ademais, há cada vez mais acadêmicos envolvendo-se no ciclo noticioso, com blogs atualizados constatemente.

Para os que julgam que blogueiros apenas copiam notícias da mídia tradicional (“parasitas”), Johnson observa que conteúdo próprio, inclusive “furos”, são produzidos na blogosfera.

“O que aconteceu com a tecnologia e política está a acontecer em outros lugares, apenas num tempo diferente. Esportes, negócios, resenhas de filmes, livros, restaurantes – todos os campos do formato antigo de jornal estão proliferando on-line. Há mais perspectivas; há mais profundidade e mais superfície agora. Isso é o novo crescimento. E apenas começou a amadurecer”, opina.

Além da diversidade de informações e opiniões, outro aspecto importante que ele cita é o aumento de dados multimídia que ajudam a complementar as notícias. O discurso da Filadélfia de Barack Obama, um dos momentos-chave da campanha à presidência dos EUA, foi visto por oito milhões de pessoas só no YouTube. Segundo Johnson, dificilmente alguma emissora o teria exibido na íntegra. Teria sido reduzido a um resumo de um minuto.

“Na verdade, acho que, a longo prazo, vamos voltar a analisar muitos aspectos da velha mídia e perceber que estávamos vivendo em um deserto disfarçado de floresta tropical. A notícia local pode ser o melhor exemplo disto. [...] Eu adoro ler o caderno com notícias locais da cidade do New York Times, mas quando eu vou lê-la todos os domingos, há apenas três ou quatro histórias em toda a seção que eu acho interessante ou relevante para a minha vida, das vinte histórias totais da seção. E todas as semanas no meu bairro há, facilmente, vinte histórias que eu estaria interessado em ler: um assalto a três quarteirões da minha casa; abertura de uma loja de conveniência; a venda de uma casa; a grande vitória da equipe de basebol da escola do meu filho. O New York Times não cobre essas coisas não porque alguns jornalistas não fazem a parte deles, mas sim porque não é economicamente viável: há apenas alguns milhares de pessoas potencialmente interessadas nessas notícias e eventos, em uma cidade de 8 milhões de habitantes. Há notícias da área metropolitana que interessam a todas as pessoas em uma cidade: corrida eleitoral pela prefeitura, cortes na verba das escolas, grandes nevascas. Mas o que mais nos preocupamos em nossa experiência local fica na cauda longa. Nós nunca pensaremos ser uma falha do jornal que em sua seção metropolitana não exista a noticia sobre o fechamento de uma loja de conveniência, porque não é concebível que um grande jornal vá cobrir um evento com um raio de interesse tão pequeno como esse”, afirma.

Para ele, haverá mais conteúdo, não menos; mais informação, mais análises, mais precisão, uma gama maior de nichos cobertos. “Você já pode ver o processo acontecendo na maioria das seções importantes dos jornais impressos: tecnologia, política, finanças, esportes. Agora suponho que seja possível que por algum motivo as coberturas investigativas ou internacionais não prosperem sozinhas nesse novo ecossistema, que em dez anos olharemos para trás e perceber que quase tudo evoluiu, menos essas duas áreas. Mas penso que seja tão possível que toda essa inovação em outros lugares libertará a mídia tradicional para se focar em coisas como a cobertura de guerra porque eles não precisarão pagar por todos os outros conteúdos que eles historicamente tiveram que produzir. Esse é o bordão de Jeff Jarvis: faça o que você faz melhor, e ofereça links para o resto”, prevê.

“Agora, há uma objeção à visão de notícia deste ecossistema que eu levo muito a sério. É muito mais complicado navegar neste novo mundo do que é sentar para ler o jornal de manhã. Há muito mais opções para escolher e, é claro, há mais barulho agora. [...] Estou confiante que eu recebo muito mais informações úteis desse novo ecossistema do que eu recebia da mídia tradicional quinze anos atrás, mas eu me orgulho em ser navegador de informação experiente. Podemos esperar que o público em geral tenha a mesma habilidade e tato para navegar neste novo ecossistema?”, pondera.

Segundo Johnson, em tese que defendo há algum tempo, os jornais poderiam fazer esse trabalho de triagem. Como escrevi no ano passado:

Cada vez mais, a construção das notícias pode ser enriquecida com participação colaborativa das pessoas. O jornalista passa a ser o organizador dessas informações, dessa produção coletiva. Que pode estar espalhada em diversas ferramentas da web 2.0: Flickr, Youtube, Twitter etc. Ao mesmo tempo que filtra o que há de mais relevante, contextualiza o assunto e checa a veracidade das informações e depoimentos.

Os jornais representam, muitas vezes, marcas fortes, com credibilidade. Esqueçam o suporte da notícia: apesar da tiragem diminuir, a audiência dos sites dos jornais aumenta. “[…[ Se eles pararem de pagar pelo conteúdo que a web já gera por conta própria, eu suspeito que a longo prazo eles se tornarão sustentáveis e vitais como eles jamais foram. O lema de todos os jornais do país deveria ser: todas as notícias que merecem link”, recomenda.

Imagem via Flickr de *Solar ikon*