O manifesto das publicações segmentadas
Num post anterior, já havia falado sobre o trabalho de Umair Haque (The New Economics of Media), autor que escreve sobre a cultura de nichos. Nesse ano, ele lançou um manifesto, endereçado à indústria da informação, sobre conteúdo segmentado.
O século 21 traz uma nova dinâmica, e o estilo de notícia do século passado não se encaixa nessa sociedade em transição. O futuro aponta para micromídia, que não são os meios tradicionais de comunicação numa nova embalagem. São o exemplo da época de inovações em que vivemos, dando uma nova abordagem ao próprio conceito de notícia.
Para ele, esse novo tipo de produção e divulgação da informação possui oito pontos essenciais:
- Conhecimento, não notícias;
- Não ditam o que é notícia e qual a opinião (algo que faz a indústria da informação), mas sim oferecem “commentage”. Trata-se de uma espécie de irmã mais nova da reportagem, em que o espaço para comentários é um convite para a participação dos leitores. Esse diálogo enriquece o produto final, já que a audiência contribui, trazendo novos enfoques, apontado falhas etc;
- Tópicos no lugar de textos que são facilmente esquecidos. Notícias são para informação; tópicos, para o conhecimento. Um tema pode ser tratado numa série de posts, sendo o assunto acompanhado nos seus desdobramentos;
- Ao invés de se preocupar com circulação, que faz muitos jornais oferecerem as mesmas histórias, contadas de forma igual, a micromídia se pauta por desenvolver perspectivas, habilidades de análise de forma única;
- Tópicos de conversação, sem estar atrelado a periodicidades específicas (diário, semanal, mensal etc.). Você acompanha a informação durante o desenrolar dos acontecimentos.
- Jornais perseguem a perfeição (gramática, ótimos títulos e lides etc.) Na micromídia, há provocação -que pode ser um convite apenas para a polêmica, bem verdade- que suscita a reflexão, nos desafia.
- Jornais não são transparentes, já que recebem influência de interesses econômicos, lobistas etc. Já as publicações segmentadas oferecem conteúdo para a comunidade, que está aberta para criticar, fazer correções, contribuir etc.
- O que importa é o trabalho, não a tecnologia empregada. Blog, Wiki, Twitter… Mais relevante é o conceito, e não o aparato tecnológico.
Ademais, Haque aponta quatro modelos para micronichos:
Sentinela – Patrulha um determinado segmento. Esse jornalismo investigativo identifica mau comportamento, promessas não cumpridas etc.
Crônica – Visão pessoal de um colunista, que oferece textos pertinentes. Podem desafiar o status quo, com um ponto de vista engraçado.
Informante – Notícia acompanhada de análise abalizada de algum profissional ligado a uma área específica.
Pioneirismo – Valoriza as novas ideias, conceitos, ângulos etc.
O jornalista Michael Massing também escreveu um bom texto sobre o assunto. Fala sobre jornalismo de qualidade -opinativo e investigativo- feito na blogosfera. Esse trabalho amplia, em muitos casos, a cobertura de temas não abordados pela mídia tradicional. “O poder das instituições jornalísticas está se movendo para o jornalismo individual, com muitos profissionais conseguindo financiamento para a criação e manutenção de seus sites”, diz o texto.
(Vale a pena também conferir Cauda Longa, livro de Chris Anderson, autor influenciado por Haque)
O conceito de nichos é atraente: a push media (quando procuramos notícias específicas), e não apenas a pull media (quando a notícia chega até você, mesmo sem buscar por ela), abre novas possibilidades.
Haque defende que antes de pensar um novo modelo para a comercialização da informação, o ideal seria reformular a elaboração das notícias.
Para Haque, o futuro das notícias aponta para os nichos. Isso porque eles possuem um modelo econômico melhor. Não têm de se preocupar, por exemplo, com funcionários, escritórios e custos diversos. A micromídia entrega grandes benefícios a um custo menor. Os leitores tem acesso a mais conteúdo, com melhor qualidade, com mais rapidez.
Apesar de ver muitas ideiais interessantes em Haque, acredito que ele incorre no erro de muitos pensadores atuais: a polarização da internet. Falo sobre isso noutro texto.
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)