O último episódio de Lost [The End]
E o seriado, como escrevi antes, acabou sem explicar tudo. Na verdade, propôs novos enigmas. Para quem não viu, vale o alerta: há diversos spoilers no texto.
Lost chegou ao final (na TV). Todavia, não foi concluído. De certa forma, foi uma jogada esperta dos roteiristas. Dificilmente um final agradaria a todos. Melhor continuar na mesma toada, optar por um final aberto. Que, como toda a série, vai despertar muitos debates. Ademais, permitirá aos fãs “brincarem”, criarem novos enredos (fan made). Há toda uma gestão de Hurley como protetor da ilha a ser escrita.
Enquanto muitos esperavam prosa, os criadores ofereceram poesia. Devo dizer que apreciei o final. Revisita passagens marcantes da série. Flashs de apenas alguns segundos tiveram mais carga emocional do que temporadas completas de muitos seriados.
O diretor de cinema Manuel de Oliveira afirmou, em depoimento no livro Entrevistas – Vol. 1, de Hans Ulrich Obrist, que “a fé é o que amarra a vida, mesmo para os que são ateus. É preciso ter esperança, fé numa ideologia, no futebol, em qualquer coisa, algo que force a continuar. Se quisermos ir mais longe, a fé na eternidade é incessante: ‘Nós estamos aqui, mas somos pagos para esperar’”.
Lost, de certa forma, virou um ato de fé. Não apenas por ecoar várias crenças religiosas, mas pela própria experiência em si. Ao longo desses seis anos, muitos preservaram uma crença inabalável no seriado. Mesmo antes do programa dar uma guinada para o lado místico, esses telespectadores perseveraram, acreditaram no que era exposto e no que não era revelado. O imaterial também era digno da sua devoção. De certa forma, já estavam fadados a apreciar qualquer final. Alguns por acreditarem que o mais importante foi a própria jornada. Outros por se portarem como fãs ardorosos de bandas, que nunca acreditam que seus ídolos seriam capazes de lançar um disco ruim.
Há também aqueles que não se mantiveram fiéis, largaram o seriado nas primeiras temporadas. E não entendem o porquê de um programa de TV despertar tanta devoção, mesmo não entregando todas as respostas prometidas. Esses se sentem aliviados por terem se tornado infiéis.
Mas o que dizer dos que continuaram fiéis ao seriado, acreditando que havia explicações para tudo? Eram, inclusive, fãs ardorosos, que refutavam as críticas feitas ao seriado. Se tornaram os verdadeiros candidatos de Jacob: vigilantes, sempre acreditavam nos produtores, que diziam serem capazes de ligar todos os pontos. Aliás, desde o começo o programa já sabia como iria terminar. Esse foi um dos mantras repetidos nesses seis anos. Como discípulos de Jacob, esses seguidores acreditaram que existia um propósito para tudo isso. Ao contrário dos protagonistas, se sentiram ludibriados por não terem atingido o nirvana.
E as respostas? Lost se despediu deixando várias lacunas: o que é a ilha? O que é aquela fonte? Por que Jack, tendo passado pelos mesmos lugares que o irmão de Jacob também não virou “fumaça”? Aliás, o que é a fumaça? Por que ela era tão perigosa para o futuro da humanidade?
Então, questionar os mistérios não solucionados é pertinente ou não? É uma resposta pessoal. O artista e crítico Sérgio Milliet certa vez afirmou que “A compreensão do fenômeno artístico não implica a aprovação irrestrita dos resultados“. Por outro lado, o artista plástico Marcel Duchamp já defendeu que o espectador deve fazer 50% do trabalho.
Confesso que entendo as pessoas que se sentiram “traídas”, que acreditaram que o final justificaria o todo. No final, se sentiram como Richard, tendo devotado tanto tempo a algo que soa sem significado. E ainda são excomungados pelos fãs mais ardorosos. Afinal, os verdadeiros apreciadores de Lost não devem questionar os desígnios da ilha.
Vi, em algum lugar, que o seriado optou por centrar sua conclusão nas personagens. Ora, a ilha era tratada como uma personagem (das mais relevantes). Além do fator mágico, a ilha desempenhava papel importante: expulsava pessoas, não permitia que algumas retornassem etc. Ou seja, a ilha não era um adereço. No final, foi tratada apenas como cenário da ação.
Ademais, é estranho que um programa, que evoque o perdão, seja tão cruel com algumas personagens. Se Kate flanou durante todo o programa e encontrou sua redenção sem necessariamente fazer um ato de contrição, outros sempre passaram por grandes provações. Michael, o criminoso errático, nem fez a passagem final. O irmão de Jacob, a “fumaça”, não contou com a clemência dos demais. Por outro lado, teve a oportunidade, mas não matou Jack. Claro, também praticou sua dose de vilanias. Assim como Ben, que contou com certa benevolência dos demais. A fumaça, que virou esse ser por culpa do protetor Jacob, apenas queria partir. Entretanto, mesmo tendo perdido seus “poderes”, ou seja, sendo apenas um humano, não pode deixar a ilha. Ele estava possuído? Muitos dos que estavam “contaminados” por essa entidade conseguiram a redenção, como Sayd e Claire.
Para o cineasta Manuel de Oliveira, a utopia está sempre presente [Entrevistas - Vol. 1, de Hans Ulrich Obrist]. “Mas não se realiza, essa é a diferença. Se realizar-se, deixa de ser utopia. A realidade não é utópica, a utopia é o desejo de chegar a uma harmonia, a um equilíbrio.” Para muitos, Lost representa a própria utopia. Para outros, a experiência seria um exemplo do oposto (distopia). E para você?
PS – Essa papo não termina aqui. Volto ao tema Lost noutro texto.
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)