Por uma nova mentalidade na produção e difusão de entretenimento [ou como transformar a audiência em aliada] – Parte 1
Uma das características mais badaladas da internet é a divulgação boca a boca. A possibilidade de recomendar para seus contatos produtos e serviços que acha relevante.
Todavia, como se trata de uma sociedade em rede, você nem precisa conhecer essas pessoas. Já falei aqui, por exemplo, sobre como a conversa sobre seriados ocorre globalmente. Ou seja, você pode acessar os Trend Topics do Twitter e conhecer quais os assuntos mais quentes do momento. A opinião individual alimenta o coletivo. O crítico de arte somos nós. Afinal, não estamos procurando novas formas de medir o sucesso?
O burburinho coletivo despertou sua curiosidade. Todavia, em muitos casos você não tem como alimentar esse desejo. A não ser por vias ilegais, já que muitas dessas obras vão demorar a chegar ao Brasil. Nisso, as empresas de entretenimento cochilam. Por isso, eis um daqueles textos em que dou meus pitacos. Uma consultoria gratuita e aleatória. Mais do que reclamar das posturas das empresas, melhor é oferecer ideias, novas propostas.
Nesse brainstorm, vou usar novamente os seriados norte-americanos como exemplo.
Agindo de forma fechada, você perde, inicialmente, duas audiências. Os mais afoitos já se acostumaram com a pirataria. Todavia, você também perde dinheiro porque não transforma o desejo despertado em novos consumidores. Isso porque ele pode rumar para a pirataria ou apenas deixar essa vontade de lado.
De toda forma, você perde o efeito multiplicador da internet. É como anunciar um produto numa loja e, chegando lá, o consumidor não encontrá-lo.
Como o conteúdo é ilegal, há quem assista, mas não comente. E essa pessoa pode ser influente para um determinado público.
Se a audiência é global, porque restrições regionais? O site de vídeos Hulu exibe séries gratuitamente. Isso se você estiver nos EUA. Não faz sentido. O canal Comedy Central tem uma postura mais inteligente, liberando alguns shows via internet. Entre eles, o popular desenho animado South Park.
(Aliás, recentemente a animação politicamente incorreta virou novamente sinônimo de polêmica por tratar jocosamente representações religiosas. Esse episódio foi censurado. Todavia, quem achou interessante a proposta do desenho pode assistir outros episódios dessa temporada. Como o também badalado episódio sobre o Facebook.)
Alguém pode sugerir que essa atitude destrói a janela, o intervalo de lançamento em plataformas distintas. No caso dos filmes, primeiro eles são lançados no cinema, depois DVD/Blu ray, tv aberta, canais pagos etc.
Essa é uma forma obsoleta de lidar com o assunto. Tome como exemplo o seriado Lost. O programa possuía várias audiências. Foi um seriado de sucesso calcado no mistério, mas havia um público que esperava sem problemas para encontrar as resoluções do quebra-cabeça assistindo todos os episódios em DVD (o boxe de toda a temporada). Ou mesmo na Globo, com grande atraso em relação aos EUA.
Pense em hábitos de consumo, e não apenas na audiência como um bloco. Há quem espere ansiosamente a estreia de um filme no cinema. Outros optam por aguardar mais um pouco, para não enfrentar filas grandes. Há ainda os mais tranquilos, que vão assistir apenas em casa, meses depois.
Por outro lado… Há aqueles que disputam ingressos de pré-estreia, que pagam até mais caro pelo prazer de ver em primeira mão. Esse é o público que baixa filmes e seriados da internet. Não se trata apenas de não pagar pelo produto, por optar pela versão “pirata”. Esse espectador também é um grande entusiasta, que quer ter o prazer de ter a experiência antes dos demais.
No cinema, nem todos os filmes ganham pré-estreia. Tem de existir demanda para isso (estratégia adotada apenas nos grandes lançamentos). Na internet, como há público para tudo e já que a audiência é global, não haveria problemas. Seu produto seria bem acolhido, mesmo sendo de nicho, destinado a um público segmentado.
Alguém poderia dizer: “Ah, mas esse povo vai querer ver seriados norte-americanos sem legenda?” Bem, você não está seguindo meu raciocínio aqui. Primeiro, há quem assista em tempo real, via serviços de streaming (ilegal). Isso porque estamos falando de um audiência seleta, que provavelmente estudou outras línguas. Segundo, olhe com atenção o que está acontecendo agora.
Muitas pessoas fazem o trabalho de tradução “de forma ilegal” pouco depois da exibição desses programas. Muitos criam legendas durante a madruga! Mas o trabalho não é solitário, mas sim coletivo. Alguns traduzem, outros sincronizam as legendas com o vídeo. Porque você não poderia criar um serviço para facilitar isso?
Pense nas vantagens. As pessoas não precisam baixar o arquivo, ele está disponível online. Basta apertar o play e pronto. E o público que não sabe inglês, o esperanto não oficial, pode esperar as legendas, que serão criadas pelos usuários mais engajados. Agora imagine: se as pessoas pudessem comentar um seriado e apontar para um único endereço? Seria ruim aparecer como um dos links mais compartilhados no Twitter?
E seria uma audiência… eterna, já que, por ser legal, você não teria porque mudar o servidor. Afinal, não é um produto ilegal.
Em termos de SEO, também existiram vantagens. Grande parte dos comentários apontaria para o mesmo endereço. Com isso, o link apareceria em destaque nos mecanismos de busca (Google, Bing, Yahoo…). Ou seja, quem procurar informações sobre esse programa chegaria a esse site.
Aí o mais descrente poderia dizer? “E porque alguém iria traduzir de graça?” Crie vantagens para ele. Note que as pessoas não deixam de sinalizar que contribuíram no processo de criação de legendas para arquivos “piratas”. Seus pseudônimos aparecem no começo dos vídeos baixados via programas de compartilhamento de arquivos (P2P).
Já imaginou se fosse criado um ranking das pessoas que mais contribuíram? Muitos se contentariam com isso, com a visibilidade obtida. Até porque eles não precisariam mais se “esconder”. Os colaboradores mais assíduos poderiam se tornar editores, monitorar as mudanças nas legendas para evitar vandalismo (isso já ocorre na enciclopédia colaborativa Wikipédia). Estamos falando de fãs, que se dedicariam com afinco ao programas que apreciam. Se eles pudessem levar essas informações para outras redes sociais, melhor ainda. Já imaginou poder mostrar esses dados no Facebook? Novamente, audiência global.
Mas, claro, não seja pão duro. Compartilhe o lucro. Destine uma percentagem da propaganda aos internautas mais engajados. Como você já tem o material traduzido, será mais fácil lançá-lo em DVD/Blu Ray. Afinal, tem um público que aprecia colecionar esses produtos. Então, destine aos tradutores mais assíduos uma margem do que foi negociado. Ou seja, você o transforma em parceiro. Por que ele optaria pela pirataria se ele é seu sócio nos negócios?
E se você fosse inteligente, faria uma parceria com o Torrent (e outras tecnologias que surgirem). Daria uma de descolado e não tentaria destruir o que já existe. Afinal, a culpa é toda sua. Não deu oportunidades ao consumidor. Mas aí eu sei que você estaria sendo progressista demais.
Talvez não tenha percebido, mas ao adotar essas táticas você está criando comunidades em torno dos seus programas. Poderá não apenas alimentar os fãs, com produtos especiais como chat com os atores, exibição de bastidores etc. Mas vai criar multiplicadores, pessoas que poderão recomendar para seus contatos o que eles apreciam. Você não joga contra o boca a boca, mas facilita essa atividade.
Não precisa tenta recriar a roda. Pode linkar para fóruns de fãs, wikis temáticos. Você se transformou num hub de conteúdos atrelados ao seu show. O lento ainda pode perguntar: “O que eu ganho com isso?” Você pode mapear o consumo de mídia, saber que tipo de conteúdo é mais apreciado e em que gadget (TV, computador, tablet, celular etc.) Ou seja, poderá descobrir quais são os grandes hits em todas as telas, mas também poderá identificar conteúdo de nicho, aquele que funciona apenas na tela do celular, por exemplo. Com isso, poderá lançar novos programas já com base nessas informações.
Ademais, poderá criar um raking geral de audiência, bem como fazer recomendações pessoais (“pessoas que gostam desse programa também assistem tais shows”). Ou seja, fará com que ele frequente rotineiramente seu espaço. Esse deveria ser a maior preocupação de todo bom empresário: converter clientes em fregueses. E ainda retomaria o direito de criar filtros para ele, poderá ser visto como um curador de conteúdo.
O texto ficou muito longo. E ainda tem mais. O papo continua amanhã.

Por uma nova mentalidade na produção e difusão de entretenimento online [ou como transformar a audiência em aliada] – Parte 2 « C2
Jul 06, 2010 @ 11:39:57
[...] Continuando minha brincadeira de futurologia. Buscando absorver e não negar as novas possibilidades criadas pelo mundo digital, você cria um laboratório colaborativo de produtos multimídia. [...]