Por uma nova mentalidade na produção e difusão de entretenimento online [ou como transformar a audiência em aliada] – Parte 2
Continuando minha brincadeira de futurologia. Buscando absorver e não negar as novas possibilidades criadas pelo mundo digital, você cria um laboratório colaborativo de produtos multimídia.
Para além do conteúdo, essa nova economia pode diminuir seu risco de prejuízo. Você investe muito dinheiro em programas que muitas vezes são cancelados após a exibição de poucos episódios? Burrice. Pense na convergência entre os meios. Esqueça a TV. É um veículo massificado, e nem todos os programas vão conquistar uma bela audiência. Se o programa “não funcionou” na TV, porque ele não poderia migrar para outro meio?
Lembre-se: você já criou uma comunidade. O programa pode continuar sendo financiado por assinatura dos membros desse grupo. Ou ser pago via publicidade e licenciamentos diversos. O mais importante é que você não precisa ir atrás da audiência, você já sabe quem admira esse programa. Ademais, você deixa de ser o vilão, a empresa malvada que acabou com um programa que a audiência gostava. Agora, você também me chama para ser sócio dos negócios. Se o programa vai acabar ou não, isso agora também tem a ver comigo. Eu posso ir atrás de mais pessoas para manter o show vivo, posso criar campanhas mais úteis em defesa do que gosto.
Além disso, nem todos os produtos podem ser interessantes para exibição em TV (aberta ou paga). Não havendo demanda publicitária, perdeu dinheiro. Na internet, provavelmente ele vai encontrar sua audiência.
Vamos além. Seria possível trabalhar com shows sociais. Por que coibir as criações feitas pelos fãs (fan made)? Na verdade, colabore para que isso ocorra. Você não apenas obtém visibilidade, alimentado a devoção dos fãs, como poderá descobrir novos talentos. Um sistema de ranking mostraria as melhores tramas paralelas criadas por fãs. Com esse dados, você poderia encontrar novos roteiristas. E novos caminhos para o seriado, já que os roteiristas oficiais poderiam estar sem boas ideias.
E, como os serviços que exibem publicidade apresentam mensagens contextualizadas (vide o sistema do Google), a propaganda exibida, mesmo o vídeo sendo assistido em outro país, será contextualizada. Ou seja, aumentará seu lucro. Estou no Brasil visitando um site estrangeiro, mas o anúncio que verei será relacionado ao meu país. Eu nem preciso criar essa plataforma de publicidade, ela já existe. Se as empresas de mídia forem ainda mais inteligentes, vão liberar o conteúdo para vários aparelhos, principalmente mobile. Os anúncios poderão ser ainda mais eficientes atrelados à geolocalização.
Estaremos criando grandes conglomerados de mídia, já que os produtos estarão concentrados? Esse poderia ser um dos desdobramentos. Mas, para falar a verdade, grandes grupos de mídia já existem.
Todavia, além dos produtos regionais, o lançamento dos artistas da “terra”, há outras formas de reciclar enlatados. Com o crescimento da classe C, há mais demanda para o lançamento de seriados em versão dublada. Nem seria uma prática de país “subdesenvolvido”. Em muitos países europeus, inclusive, séries e filmes estrangeiros também ganham versão dublada. Ademais, um seriado cancelado em seu país de origem poderia ganhar versões específicas. Você nem precisaria fazer exibições teste. Bastaria observar a audiência por país e ver onde existe demanda pelo produto.
Isso sem falar em assinaturas, recolher imposto respeitando a geolocalização do consumidor etc. Esse imposto recolhido poderia financiar produções locais, por exemplo. Na França, os sucessos de Hollywood ajudam a pagar produções locais.
Claro, tudo que escrevi acima foi um brainstorm. Nada disso pode dar certo. As transformações não são lineares. Ao mudar uma peça, o todo se modifica. Muitas vezes, a inovação vem de lugares inesperados. Mas o que proponho aqui não é antever o futuro, mas tentar absorver práticas atuais e tendências incipientes.
Ademais, a capacidade de encarar riscos está ligada ao que tem se tem a perder. Se sinto que minha posição é consolidada, serei mais refratário à mudança. Mesmo que, a longo prazo, isso possa significar minha decadência. Na dúvida, prefiro o aconchego da zona de segurança.
De toda forma, não adianta você se abraçar a conceitos antigos sem senso crítico. “A longo prazo, todos estaremos mortos” (John Maynard Keynes, economista inglês). Achar que a resposta para os tempos atuais é endurecer as leis de direitos autorais, transformar fãs em criminosos… A indústria cultural da forma como conhecemos está em fase de transição. Você decide se quer se portar como ditador ainda afeito ao poder, que não pensa em fazer concessões, mesmo o povo reclamando das condições em que vive. Ou pode atender o clamor popular e flexibilizar seus conceitos. Ainda será visto como um déspota esclarecido.
Tentar controlar toda a cadeia produtiva do entretenimento não é mais possível. Não aprendeu com o erro das gravadoras? Claro, há muito o que criticar na relação que elas mantinham com os artistas. Todavia, elas também atuavam como mecenas, ajudando principalmente os artistas iniciantes. Agora, vivem em crise. Forma nomes que, depois que o contrato acaba, vão lucrar (e muito) sozinhos. Já o prejuízo dos artistas que não vingaram – e são muitos! – é todo delas.
Pior: hoje as gravadoras são vistas como o inimigo até por artistas novatos. Repetiu-se o mesmo que ocorreu com a pirataria: transformaram essa postura combativa num ato político. Agora, todos os músicos são punks (pelo menos na atitude) e adotam a doutrina faça você mesmo.
