Qual o papel do jornalista atualmente?
“Acho que o jornalismo e não o ‘Times’, está sendo ameaçado pela internet. E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop em sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York…Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida.”
Gay Talese, um dos grandes nomes do novo jornalismo (New Journalism, que busca uma linguagem literária, mas sem esquecer o rigor jornalístico da apuração). Para ele, o trabalho do repórter é descobrir as histórias que valem a pena serem contadas.
Acrescentaria também: ter um olhar acurado sobre a realidade, identificar matérias e o enfoque mais interessante, saber contextualizar o assunto para que o leitor tenha uma visão ampla do tema, buscar boas fontes para a notícia, saber elaborar boas questões e extrair o melhor da entrevista, ter poder de síntese, selecionando os pontos mais importantes, escrever bem…
Até concordo com Talese em alguns pontos. Atualmente, não raro escuto um cliente dizer que vai optar por não contratar um fotógrafo profissional, visto que tirar fotos é simples. Não é uma tendência nova. Há dez anos, era comum encontrar sites feitos por “sobrinhos que entendem de informática”. Esse é um papo longo, sobre qual o papel da criação quando todos estão produzindo.
De toda forma, essa postura que evoca “bom mesmo era o meu tempo” caduca. Talese também deve ter sofrido críticas quando começou a criar uma nova forma de jornalismo. Mesma postura que adota agora. O meio online talvez fosse muito útil para ele: o texto tem o tamanho que você julga que precisa ter. Claro, o poder de concisão mostra-se necessário, mas você pode fazer o que quiser, empregar o seu estilo.
Para piorar, se critica a plataforma, e não o conteúdo. É o mesmo que ocorre com a TV, demonizada por muitos intelectuais. Seria o mesmo que dizer que todo jornal não presta porque há os apelativos, que investem em material polêmico. Por isso acredito que a maior mudança não será tecnológica, mas sim de mentalidade.
Atualmente, muitos blogs se caracterizam por ser uma coluna de variedades, em que se fala sobre tudo, não se tem um foco editorial. Ademais, são basicamente textos opinativos. Mas há também os blogs consistentes, que produzem material relevante, conteúdo original, investigativo.
Não sei o que o futuro reserva, mas trata-se de uma linguagem iniciante. Muitas vezes se critica a produção da internet como se fosse um meio maduro, mas a popularização da grande rede é recente. Blogs tem pouco mais de dez anos.
Não é uma mídia que nasceu ontem, então já se espera certa qualidade editorial (que já há em muitos projetos). Mais que isso, é esperar maturidade de uma criança. Além disso, cobrar o mesmo grau de desenvolvimento de mídias que existem há muito tempo soa insano.
Mudanças
Muitos dos projetos online subvertem característcas anteriores. Não me refiro à parte operacional, mas sim mudança de mentalidade. Ao contrário de um jornal impresso, que tem de entregar um produto fechado, um blog, por exemplo, pode ir alimentando um texto quando novas informações surgirem. Uma obra em permanente construção.
Outro ponto distinto é que, como a internet é tão ampla, ramificada e nova, muitas ideias surgem sem a preocupação de saber se isso está em conformidade com o que se recomenda, sem pensar no patrulhamento alheio que diz que isso é certo ou errado. É o território das ideias, muitas delas inusitadas.
Não que só haja aspectos positivos. Do ponto de vista econômico, projetos interessantes são lançados, mas sem a preocupação da viabilidade financeira básica, sem saber como lucrar, o que seria inviável no mundo “real”.
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