Quanto dura o amor?
“Nós, pessoas do presente, temos uma ideia do amor que remonta ao século 18 e à tradição romântica. Quebramos códigos genéticos, inventamos a internet, mas continuamos românticos até a medula. O amor é mutante, pode se tornar amizade, ódio. Não morre, se transforma.”
Mas, afinal, quanto tempo dura o amor? Uns três ou quatro anos. Passou disso, já é lucro. É o que dizem as pesquisas.
Sempre achei curioso esse raciocínio. Relações bem-sucedidas são aquelas que duram bastante. Embora ache que muitos pulam fora de relações sem ao menos tentar sedimentar algo sólido, noto que pouco se fala da qualidade. Pior, o tempo muitas vezes joga contra. “Estou há muito tempo com essa pessoa, seria ruim descartar o que nós construimos juntos”. Dessa forma, uma relação danosa se perpetua. Quanto mais convívio, mais “razões” para ficar.
E quando vem a ruptura… Se acabou, foi um fracasso. É hora de partir para outra, sem refletir. Por que não encarar a relação que ficou para trás como algo que funcionou durante um tempo, e depois já não merecia ser prolongada?
Na busca de uma relação que represente um porto seguro, o que ficou para trás é visto com mágoa, tempo perdido. Claro, há relações complicadas, cujo saldo é se sentir enganado, mas será que todas são assim?
No livro O Passado, Alan Pauls defende que “todo mundo é polígamo. Não vive só com a pessoa com quem está casado, mas também com todas as pessoas que amou, as que deixou, as por quem foi deixado“.
Experiência pode contar pontos. Significa amadurecimento, vivência. O problema é que muitos procuram um ser iluminado, aquele prometido para nós. Ora, passamos tanto tempo mergulhados em expectativas alheias, buscando reconhecimento e legitimação exterior, que esquecemos de acreditar (e investir) em nós mesmos.
Para mim, um relacionamento satisfatório é constituído por pessoas que possuem metas e projetos próprios e tentam evoluir no caminho. Perseguem critérios pessoais, tem um certo contentamento com a vida que levam. Não procuram nos outros a salvação, mas sim algo mais.
Depois, vem a questão dos princípios. Qualquer relação deveria ser pautada por gentileza, generosidade, honestidade, sinceridade e apoio mútuo. Entretanto, nem sempre achamos isso por aí. Quando encontramos, esse ser é tido como especial, uma espécime rara entre os que falham. Aí o idealizamos tanto que nem conseguimos perceber suas falhas. Não amamos o real, mas sim o que criamos. Só enxergamos o mito.
Mas ainda falta um ingrediente. Talvez o elemento mais importante da equação: cumplicidade. Relacionamentos não são simples operações de soma, mas sim de multiplicação. É ir além, o que muitas vezes é achar mais do mesmo. Você não procura o que falta, busca-se a redundância. É o sentimento de se (re)encontrar no outro, identificar alguém que partilha dos mesmos interesses. É aquele que foi “feito para você”.
Mas calma aí, não existe 100% de compatibilidade, até porque evoluímos no caminho. Por isso, outra característica importante é respeitar os gostos pessoais. Por que ir ao estádio de futebol com ele, se vai ficar reclamando, se não procurou conhecer as regras do jogo? Não seja um peso morto. Se é para entrar no mundo dele, faça com dedicação. Com gosto. Ou pelo menos sem preconceito. Aliás, por que não deixá-lo curtir esse momento sozinho? Ou com seus amigos entusiastas? Nisso, geralmente os homens são menos pegajosos. Nunca vi um macho dizendo que queria curtir um salão de beleza com a mulher. Simplesmente, não se vê ali. É o espaço dela.
Relação não é abdicar da sua vida. Respeitar o espaço individual é importante. Já vi tanta gente incorrer no erro de, ao assumir um relacionamento, passar a conviver apenas com os amigos do outro. Ou pior, se fecha nos dois, apenas faz atividades “românticas”. Esquece completamente de sua rotina anterior. Aí, no final do relacionamento, não tem ninguém ao seu lado. Antes de ser deixada, abandonou a si própria, descartou seus amigos, sua vida.
Encontrado esse “ser único”, é importante também saber o que ele busca num relacionamento. Do que adianta você querer ter filhos com uma pessoa que não quer tê-los, que não leva o menor jeito para isso? Esse é apenas um exemplo. Falta de química na cama é outro. Fazer sexo com hora marcada é broxante. Relação sem tesão não rola.
Há mais: nada pior do que ser a pessoa “sensata” da relação, aquela que fica de olho nos gastos, quanto o outro vive sem pensar no amanhã. Ele faz isso porque você já assumiu esse lado, pelos dois. De certa forma, você financia a “rebeldia” dele. Antes, eram os pais. Agora, esse papel coube a você. O que deveria ser uma preocupação conjunta, vira responsabilidade de um. Afinal, “ele não leva jeito para isso”. Com o tempo, sente-se esgotada, já que a dor de cabeça de dois é vivida apenas por um.
Daí, surgem as discussões de relação. Que, na prática, servem apenas para despejar no outro suas desilusões. Não é uma conversa, mas um julgamento sem espaço para defesa. Esse SAC amoroso não vai funcionar se o outro tiver pouco espaço para se expressar.
***
Esse papo te deixou para baixo? Logo agora, próximo dos dias dos namorados? Não desanima, não. E encontre formas de ser mais romântico. E menos consumista. Dia desses, vi anúncio de carro recorrendo ao dia dos namorados!
Ou então assume de vez o que o psicanalista Francisco Daudt caracterizou como “monogamia seriada“: “É poligamia disfarçada. Cumprimos o papel de polígamos, mas com uma pessoa de cada vez.”
Imagem via Flickr de wunderkind
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)
