Quem paga a conta na economia digital?

“O problema é pensar que temos uma resposta razoável para o problema do financiamento da informação de qualidade, da cultura, da filosofia ou das ciências. Não temos tal coisa. [...] E não o teremos jamais se todos assumirmos uma atitude de nojo aristocrático pelo dinheiro, pela compra e pela venda de serviços e bens que envolvam ideias. Estaríamos a dar um passo de gigante na direcção certa se assumíssemos que queremos vender informação de qualidade, artes, filosofia, ciência, aulas. Porque aí veríamos que o problema é encontrar quem realmente queira comprar isso que queremos vender, ao invés de se limitarem a bater hipocritamente no peito dizendo que muito valorizam essas coisas — desde que não tenham de abrir a carteira”.
Desidério Murcho escreve sobre os desafios do financiamento trazidos pela economia digital. Para ele, mesmo as iniciativas gratuitas, como o navegador de internet Firefox, só sobrevivem e ganham destaque quando associadas a grandes marcas. A fundação Mozilla, que mantem o browser, tem um acordo de publicidade com o Google.
“É a nova economia digital, da qual a Wikipedia é o paradigma: quem ganha dinheiro são alguns tubarões que, agitando o isco da gratuitidade, conseguem viver da Wikipédia porque milhares de voluntários papalvos trabalham gratuitamente para eles. [...] Esta ilusão, contudo, mostra como o problema fundamental do financiamento se oculta facilmente: se as pessoas realmente prezassem o trabalho desses voluntários, estariam dispostas a pagar-lhes directamente [...] para que pudessem fazer um trabalho melhor e genuinamente independente”, analisa.
O autor erra ao citar a Wikipedia. A enciclopédia livre goza de prestígio e recebe doações. No começo desse ano, atendendo a pedido do fundador do site, Jimmy Wales, internautas doaram à página um montante de 6 milhões de dólares. Esse valor foi obtido em apenas uma semana.
De toda forma, Murcho levanta um ponto importante: estamos criando uma barreira em relação a pagar por trabalhos/produtos intelectuais? Para defender seu ponto de vista, faz uma comparação curiosa. Se fosse uma opção pagar imposto, poucos o fariam, mesmo sabendo que esses recursos financiam serviços públicos.
“Se as pessoas pudessem escolher pagar ou não impostos para financiar a medicina, quase ninguém escolheria pagar tal coisa, apesar de correrem o risco óbvio de ficarem doentes no futuro e depois não poderem ser curadas. Quando temos um sistema em que paga quem quer, só as pessoas mais generosas do que o comum pagam; a generalidade das outras pessoas sentem-se até particularmente espertas porque podem ter sem pagar. Esta é aliás uma das motivações da pirataria informática: muitas pessoas que têm em casa gigabytes sem fim de músicas e software pirateado nem sequer o usam, mas pirateiam-no porque se sentem espertos tendo de borla algo que as outras pessoas pagam”, avalia.
Até os blogs teriam sua autonomia comprometida, visto que, ao optar por publicidade online, teriam de investir num conteúdo mais popular para atrair audiência.
“Outro pensamento melancólico [...] é a palermice de pensar que podemos prescindir do jornalismo profissional porque agora temos os blogs [...] O problema é que os blogs não são financeiramente viáveis: nenhum jornalista profissional poderia manter-se escrevendo notícias num blog, porque as pessoas querem ler os blogs de borla [...]. E se o jornalista colocar publicidade no blog, fica outra vez na mesma situação que já conhecia com os jornais em papel: terá de enchê-lo de palermices, para ter milhares de visitas, sem as quais as receitas publicitárias não serão suficientes para o manter”, observa.
Imagem via Flickr de Andross

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