Sentimentos e consumo
Acima, trailer do ótimo documentário Criança, a Alma do Negócio, dos cineastas Estela Renner e Marcos Nisti. O filme pode ser assistido via web. Outra boa pedida sobre o tema é conferir o documentário A história das Coisas (também disponível online)
Fim de ano lembra festas em família, mas também consumo exacerbado. Não há nada de errado em gostar de mimos, agrados (eu mesmo adoro uma traquitana eletrônica, livros e CDs), o problema é que vivemos numa época em que compramos coisas não porque precisamos, mas sim porque queremos. E esse desejo nos é ensinado.
Ademais, a publicidade não vende apenas um produto, mas sentimentos, estilo de vida. E nós “compramos” essa ideia: pagamos pelo produto físico, mas queremos o valor simbólico.
(Vale a pela conferir o documentário The Persuaders, que mostra como marcas são construídas, bem como entrega os métodos publicitários de sedução e convencimento).
Não apenas nós sofremos com isso, mas sobretudo as crianças, que não tem maturidade para lidar com essa situação. Tornam-se consumidoras antes de serem cidadãs. Se em outros países há limitações de publicidade para os pequenos (proibição de venda de brinquedos em fast foods, limitação de propaganda na programação infantil da TV), no Brasil as regras são mais frouxas.
A psicóloga Rosely Sayão escreveu sobre o assunto no caderno Equilíbrio, da Folha de São Paulo. Eis um trecho:
“As crianças costumam ser as grandes vítimas do consumo exagerado. Não são elas que querem ter mais e mais, já que os adultos entraram nessa parada pra valer, mas são elas que estão mais sujeitas ao imperativo do ter, já que ainda não conseguem avaliar criticamente as demandas nelas introduzidas.
Perguntei a algumas delas, com idades entre seis e dez anos, qual o último presente que ganharam. A maioria não soube responder. Algumas citaram vários brinquedos e eletrônicos, outras se esforçaram para lembrar, muitas ficaram na dúvida ou não se importaram com a resposta a dar porque qualquer uma valia.
[...]Muito mais fácil para elas foi listar o que queriam ter do que nomear o que já tinham e que gostavam de usar. Mais uma vez, é possível interpretar que a quantidade enorme de objetos que ganham não permite que elas desfrutem do uso deles.”
Já Contardo Calligaris identifica o surgimento dos “kidadults” (“criançultos”). Trata-se da infantilização do consumidor:
“Por que o mercado prefere lidar com “criançultos”? E o que nos predispõe a sermos infantilizados? Uma breve hipótese. Houve, sobretudo a partir da segunda metade do século 20, uma explosão de um tipo especial de amor dos pais pelos filhos, um amor feito de esperanças e expectativas monstruosas (as crianças serão o que quisemos e não conseguimos ser, nada lhes faltará). Esse tipo de amor parental cria consumidores ideais: por exemplo, indivíduos com pouquíssima tolerância à frustração (e alergia à própria ideia de que algo seja difícil ou, pior, impossível) e com uma imperiosa necessidade de satisfação imediata (e alergia a tudo o que posterga: preparação, estudo, reflexão, complexidade, poupança).”
Pense nisso e…Boas festas!
PS – E se você quiser me dar uma lembrancinha, tenho uma lista de desejos no Submarino e na Amazon.com.
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)
Fábio
Dec 21, 2009 @ 16:49:41
Fantástico! É isso, quer vender? Comece a pensar nas crianças, quando elas querem ninguem consegue dizer não. Aí a venda está feita.
charles cadé
Dec 31, 2009 @ 12:09:43
Fábio,
A utilização de crianças na propaganda suplanta os produtos infantis. Os pequenos são utilizados, por exemplo, em comerciais de carro e celular.
Abraço e obrigado pela visita.