Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.

O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.

Aprendemos desde cedo valores que não nos orientam para um ser e estar num tempo de nada fazer. Tampouco nos falam sobre a importância do descanso, da tranquilidade e a necessidade de manter uma ocupação suave e prazerosa em todas as fases da vida.

Daí, torna-se normal e quase previsível seguirmos pela vida afora numa queda de braço contra o tempo, sempre focados no trabalho, na aquisição de bens e de nos mantermos ´presentes´ no mundo por meio das múltiplas conexões virtuais.

Somos um pouco diferentes dos outros mamíferos. O cheiro do sexo oposto não é suficiente para nos excitar; precisamos recorrer a fantasias sexuais –sem isso, nada ou pouco acontece. E, se você acha que não recorre a fantasia alguma, isso significa apenas que você não sabe a quais fantasias recorre.
O que é extraordinário não é que um casal transe nas escadas externas do Copan. O extraordinário é que tantas pessoas transem (ou digam que transam) sempre nas suas camas.
[…] O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tirou do ar uma ação de seu ministério voltada para as prostitutas (e demitiu o responsável pela campanha), porque ele se escandalizou com a frase “Eu sou feliz sendo prostituta”, que ele substituiu por “Sem vergonha de usar camisinha” (que ele deve ter complementado mentalmente: “mas com vergonha de ser prostituta”). O ministro poderia ser candidato a síndico do edifício Copan.

Para mim, a modernidade poderia (ou deveria) começar, exemplarmente, com essas três histórias de insatisfação feminina [‘Anna Karenina’, ‘Madame Bovary’ e ‘Thérèse Desqueyroux’], ou seja, com a descoberta de que as mulheres têm sonhos e devaneios que vão além de um marido devoto, de uma família e de uma vida ao abrigo da necessidade –em outras palavras, com a descoberta de que existe um desejo feminino.

espaço e tempo

[…]Centenas de estudos catalogaram muitas circunstâncias que podem afetar como as memórias são registradas, incluindo a emoção na época do fato, as pressões sociais que influem em sua reconstrução e até floreios acrescentados inconscientemente.
Enquanto a maioria das pessoas tende a pensar que a memória funciona como um gravador de vídeo, na verdade ela é mais como um show de slides granulado.
[…] Pesquisadores acreditam que o objetivo da memória não é apenas registrar o que aconteceu, mas oferecer um roteiro de algo possível. Como o cérebro usa memórias para “ensaios gerais” da mente, não somos programados para reter todas as facetas de um fato, dizem os cientistas. Um esquema geral é suficiente para nos impedir de nos perdermos, ou para encontrarmos comida ou sabermos o que fazer em uma tempestade.

Do NY Times.

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A cronologia […] não segue uma linha reta, mas é feita de sobressaltos. A memória é um espelho opaco e estilhaçado, ou melhor, é feita de conchas intemporais de lembranças espalhadas numa praia de esquecimento. Sei que aconteceram muitas coisas naqueles anos, mas tentar recordá-las é tão desesperador como tentar lembrar um sonho, um sonho que deixou em nós uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual resta apenas um vago estado de espírito. As imagens se perderam. Os anos, as palavras, as brincadeiras, as carícias se apagaram, e no entanto, de repente, rememorando o passado, alguma coisa volta a se iluminar na sombria região do esquecimento”

– A Ausência que Seremos, Hector Abad