Um mundo digital sem pornografia
De uns tempos para cá, a Apple vem adotando uma posição moralista, limitando a venda de aplicativos com conotação sexual para seus produtos (iPhone, iPod Touch e iPad).
Adoro os produtos da Apple, inclusive uso criações da empresa. Mas, nesse caso, discordo da prática da Apple. A história já ensinou: o Index digital da Apple sempre dará margem a questionamentos sobre os critérios adotados. A empresa, inclusive, já vetou o aplicativo de um cartunista. Depois que Mark Fiore venceu o conceituado prêmio jornalístico Pulitzer, seu aplicativo foi liberado.
A Apple já cortou, de uma só vez, 5.000 programas com conteúdo supostamente sexual. Sobrou até para uma loja virtual de biquinis. Já o software da Playboy continua liberado.
Claro, você pode comprar produtos da concorrência. Steve Jobs já recomendou: quer pornografia? opte por um celular com sistema operacional Android. Todavia, a medida atinge justamente quem não é um consumidor heavy user de produtos eletrônicos, que não sabe distinguir sistemas operacionais diferentes.
Esse é o mesmo público que durante muito tempo encarou a logomarca com “e” azul do Internet Explorer como sinônimo de acesso à grande rede. Muitas dessas pessoas desconheciam outras opções de navegadores online.
Fala-se hoje que a tecnologia está cada vez mais simples, acessível. É uma afirmação parcialmente correta. Um público amplo opta por produtos de informática como quem compra uma TV. Todavia, eles desconhecem detalhes técnicos, características de software e hardware que influenciam na experiência.
Imagine um consumidor que escolhe comprar um iPad ao invés de um netbook. A experiência será simplificada, o consumidor poderá ficar maravilhado com a facilidade de uso do tablet da Apple. Por outro lado, talvez ele desconheça do que está sendo privado.
Até mesmo a Nintendo, que mantém há tempos uma política restritiva de jogos violentos e sensuais, está mais flexível. A casa do Super Mario continua mais afeita aos produtos voltados para a família, mas os videogames da empresa receberam recentemente títulos como Grand Theft Auto: Chinatown Wars (Nintendo DS) e No More Heroes (Wii).
(Fato curioso, o violento Grand Theft Auto: Chinatown Wars está disponível na App Store. Geralmente, atitudes do tipo são comuns: costuma-se ser mais rígido com o sexo e mais tolerante com a violência.)
O ser humano geralmente é tratado como incapaz, alguém que não pode tomar suas próprias decisões. Já há muita tutela do estado, regras demais que limitam nossas vidas, que buscam estipular o que é certo ou errado. Não quero terceirizar a gestão de minha vida, por mais “bem intencionados” que estejam.
A medida visa proteger os mais novos? Quem tem de zelar pelos pequenos são seus pais, não empresas. No máximo, elas podem facilitar o trabalho dos pais, criando filtros. Algo que já acontece nos computadores, com programas “anti-pornografia”. Ou nos cinemas, que empregam classificações indicativas.
Em suma, você compraria um aparelho de DVD que limita o gênero de filmes que pode assistir? Trazendo para o mundo da informática: o que acharia se a Microsoft estipulasse o que pode instalar no seu computador, já que ela possui o sistema operacional mais popular (Windows)? Gostaria de viver num mundo assim?
PS – Como outras medidas restritivas, essa política da Apple pode ser contornada (em parte). Muitos desses aplicativos possuem sites adaptados para o iPhone. Agradeça à natureza anárquica da internet. Todavia, pode não ser a mesma experiência. Há diferenças entre sites móveis e aplicativos.

Livre da pornografia? « C2
Jun 14, 2010 @ 10:38:23
[...] Esses dois artistas liberam o que Steve Jobs proíbe. [...]