Uma mesa; poucas cadeiras
Você se foi há um mês. Dia desses, fui ao cinema, algo que fazíamos constantemente. Aliás, por que saímos de casa rumo a uma sala de exibição? Você não precisa ir acompanhado: uma tela centraliza a atenção no ambiente escuro. O outro é visto parcialmente. Na verdade, nem você está ali: um bom filme lhe transporta para outra realidade. Mas aí surge uma risada conhecida que faz a experiência ganhar um sentido único. Pessoal.
É estranho passear por essa cidade na qual construímos um rico mapa sentimental. Alguns sugerem que a memória serve de alento. Em casos especiais, isso pouco serve. Não quero colecionar recordações. Os bons momentos passados nos fazem querer mais. É uma trajetória que não gostaríamos de interromper. Desejamos novas experiências. Com a mesma pessoa. Daí surge o medo de não surgirem novos momentos significativos. Pior: de procurar em outras pessoas o que era único em você.
E aqui estou, vivendo uma nostalgia forçada.
Marcelo Camelo recentemente disse que não corrige interpretações. Por outro lado, acha mais relevante quando as pessoas não procuram o sentido das composições nas experiências do artista, mas sim que suas músicas ganhem novos significados na vida dos ouvintes. É pessoal. E até mesmo mutável: a vida segue reconstruindo interpretações. Agora, There Is A Light That Never Goes Out tem um rosto.
É estranho não tê-lo por perto. Não poder ligar e saber o que tem de bom fazer. O lugar, pouco importava: era só um pretesto para reunir os nossos.
Muitos falam da juventude como o melhor momento das suas vidas. Idealizam esse período de descobertas e poucas obrigações. Depois, o mundo adota tons escuros. A sua morte enfatiza essa regra melancólica? Estamos destinados a contemplar os dias que já passaram? Esses momentos foram eternizados, posto que não podem prosseguir. Logo conosco, que iríamos teimar em procurar novas perspectivas? Não será possível continuar essa amizade na vida adulta, enriquecê-la com momentos próprios dessa faixa etária.
Os dias seguem não apenas com reflexões. Depois que se foi, tudo ficou mais urgente. Volto aos nossos sonhos, para recriar o presente. As dificuldades(?) ganham seu contorno real.
Nesse texto egoísta, conjuguei em demasia a primeira pessoa do singular. Sendo que o eu é um reflexo do nós. Se agora falo da sua ausência, não posso esquecer que poderia ter sido mais presente. Peço perdão por não tê-lo ajudado mais, principalmente no seu último ano de vida.
“A idade de um homem se mede pelo número de seus mortos” (Héctor Abad Faciolince, autor do livro A Ausência que Seremos). Perto do meu aniversário, não tenho certeza da minha idade. Mas preciso voltar ao começo do texto para fazer uma correção: você se foi? Meus dias são repletos de nós. “All of your flaws and all of my flaws, they laid out one by one / Look at the wonderful mess that we made we pick ourselves undone” (Bastille – Flaws)
Imagens via Tumblr (pleadthe1st & dirtyacid)
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/CDLogo02.png&w=&h=)


Luisa Pinheiro
Jun 23, 2011 @ 17:42:54
Que belo texto, amigo. Doce melancolia, mto bonito, tenho nem palavras.