Vida em quadrinhos

Adolescência. No olhar do adulto, essa ebulição pela construção de identidade(s) soa conflitante, errática. Todavia, ela pavimenta o começo de uma caminhada própria. Por isso a crítica soa tão dolorosa para o adolescente: ele está tateando quem quer ser. O olhar alheio, intruso, alimenta ainda mais conflitos, já que o jovem não tem convicção de suas escolhas. Ainda mais quando hoje se fala em adolescência estendida. Em alguns casos, sem fim.

Essa busca do eu é necessária: o amor entre pais e filhos é o único que, se bem sucedido, termina em separação.

Todavia, é difícil crescer, até porque não há um lugar a se alcançar.  A experiêcia consolida diariamente quem somos, de preferência sem existir dicotomia entre nossos valores e nossos atos.

Pode ser um período de transição, mas as respostas precisam ser urgentes. Uma personagem da HQ Retalhos, de Craig Thompson, por exemplo, não acredita no amanhã.

Retalhos é mais uma graphic novel autobiográfica. Assim como outras publicações recentes -como Fun Home: Uma Tragicomédia em Família , de Alison Bechdel e Persépolis, de Marjane Satrapi, Retalhos destaca a fase de transição para a vida adulta.

Se outras graphic novels ligam-se a aspectos específicos da vida de seus autores que foram importantes nessa construção do eu (a revolução religiosa em Persépolis e a homosexualidade de Bechdel e de seu pai em Fun Home) Retalhos, basicamente, versa sobre um sonhador, daqueles que miram para longe da realidade, recriando seu mundo, já que o real não lhe acolhe. Tempos difíceis para pessoas assim. Muitas vezes, não se desdenha apenas do sonho, mas sim do ato de sonhar. E eles são instados a acordar.

O sonhador passivo muitas vezes é visto não como alguém que imagina uma nova realidade, mas sim foge dela.

E eis que surge uma garota. O problema é que esse ser amado é precedido por experiências imaginadas, quase sempre idealizadas. São anos de relações vividas no imaginário, o que cria muitas espectivas diante da experiência “real”.

Ademais, o outro é visto como alguém que irá preencher vazios, redimir uma vida muitas vezes solitária. Irá “completar” o outro, quando na verdade pode estar preenchendo espaços próprios de cada indivíduo, que deveriam ter sido desenvolvidos por ele. Se me falta coragem, o outro vai me defender. Se não tenho auto-estima, o outro vai louvar meus feitos.

O sonhador possui uma edução afetiva calcada na fantasia, e não na experiência. Se esse afeto em demasia causa atração num primeiro momento, com o tempo essa dedicação gera conflitos. Até porque estar numa relação consome toda a atenção dessa pessoa, já que muitas vezes ela não possui outras paixões.

E o amor, eterno enquanto dura, chega ao fim. E aí surge ela, a cruel realidade. A vontade de se colocar como vítima do mundo faz com que muitos procurem novamente o casulo. A realidade invade até um campo vivido apenas em sonho, o amor. Até esse refúgio do mundo foi contaminado.

Daí você pode se retrair… Ou aprender com a experiência, misturando sonho com realidade, algo salutar: ao mesmo tempo que permite viver o real, também lhe projeta para a frente. A realidade não lhe restringe, expande: constrói-se o que era apenas idealizado.  Você realiza… seus sonhos.

Certa vez, um amigo desdenhou as HQs por achar que se tratava apenas de um mundo habitado por super-heróis. Talvez o autor de Retalhos quisesse possuir poderes especiais para lidar com a realidade. Indefeso, age apenas como um ser humano.