Você tem fome de que?
Recentemente, Martha Medeiros escreveu um texto intitulado “O violinista no metrô”. Ela relatou um caso ocorrido em janeiro.
O jornal “The Washington Post” convidou um dos maiores violinistas do mundo, Joshua Bell, para tocar numa estação de metrô da capital americana a fim de testar a reação dos transeuntes.
Desafio aceito, lá foi Bell, de jeans e camiseta, às oito da manhã, o horário mais movimentado da estação, para tocar no seu Stradivarius de 1713 (avaliado em mais de US$ 3 milhões) melodias de Bach e Schubert.
Passaram por ele 1.097 pessoas. Sete pararam alguns minutos para ouvi-lo. Vinte e sete largaram algumas moedas. E uma única mulher o reconheceu, porque havia estado em um de seus concertos, cujo valor médio do ingresso é US$ 100.
Para Medeiros, “Só é possível valorizar aquilo que foi estudado e percebido em sua grandeza. [...] Se não conheço o significado que teve uma muralha para a defesa dos grandes impérios, ela vira apenas um muro passível de pichação. [...] Podemos viver muito bem sem cultura, mas a vida perde em encantamento”.
Ela segue: “[o caso] demonstra também que temos sido treinados para gostar do que todo mundo conhece. Se uma atriz é muito comentada, se uma peça é muito badalada, se uma música é muito tocada no rádio, estabelece-se que elas são um sucesso e ninguém questiona. São consumidas mais pela insistência do que pela competência, enquanto competentes sem holofotes passam despercebidos”.
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As palavras de Medeiros encontram bastante eco na realidade. Como assistir show de artistas já consagrados. Platéia ganha, não importa o que o artista faça no palco. E cheia de superlativos: maravilhosa, irretocável ou inesquecível conforme a opinião de fãs e críticos.
Geralmente, o repertório do show baseia-se no mais recente CD, que muitas vezes só faz sentido para os próprios artistas. Será que temos predisposição para gostar de certos nomes, somos mais complacentes?
Caetano Veloso regravou “Sozinho”, do compositor “brega” Peninha. Na voz do cantor baiano, a canção atingiu um novo patamar de qualidade. Há artistas que, por mais que apresentem álbuns medianos, seus trabalhos são encarados como produtos coesos e de grande qualidade.
Evidentemente, a obra ajuda, e algumas coisas são mais valorizadas quando se vê o todo. Ademais, há de se colocar nessa equação o contexto, sempre muito importante em relação a qualquer avaliação artística.
“Gostaria muito de ter circulado pela estação em que tocava Joshua Bell. Não por admirá-lo: pra ser franca, nunca ouvi falar desse cara. O que eu queria era testar minha capacidade de ficar extasiada sem estímulo prévio. Descobrir se ainda consigo destacar o raro sem que ninguém o anuncie”, finaliza Martha Medeiros. Reflita.
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Certa vez, o grupo Pearl Jam entrou com uma ação contra a TicketMaster, empresa americana que vende ingressos de inúmeros shows. A acusação? Monopólio e ingressos muito caros, com várias taxas embutidas no preço final.
Eddie Vedder, vocalista do grupo, chegou a dizer que não queria tocar apenas para fãs que pudessem pagar mais de 30 dólares por um show. Queria um público mais heterogênio. É difícil não pensar nisso ao se deparar com os preços de ingressos praticados no Brasil.
![CD [por Charles Cadé]](http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://cadedigital.com/wp-content/themes/basic/uploads/logo/cd.jpg&w=&h=)