O manifesto das publicações segmentadas

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Há dez anos, o autor Umair Haque (The New Economics of Media) lançou um manifesto  endereçado à indústria da informação. O artigo, que reflete sobre a produção de conteúdo para públicos específicos, permanece relevante. Por isso, republico meu texto sobre o tema.

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Segundo Haque, o século 21 traz uma nova dinâmica social. E o estilo de notícia do século passado não se encaixa nessa sociedade em transição. O futuro aponta para micromídia. A lógica dessas publicações não é simplesmente apresentar os meios tradicionais de comunicação numa nova embalagem. É necessário criar uma nova abordagem para o ato de informar.

Para ele, esse novo tipo de produção e divulgação da informação possui alguns pontos essenciais:

  • Ao invés de informação e opinião (algo que a indústria da informação faz), “commentage”. Trata-se de uma irmã mais nova da reportagem, em que o espaço para comentários é um convite para a participação dos leitores. Esse diálogo enriquece o produto final, já que a audiência contribui com novos enfoques, aponta falhas etc;
  • Tópicos no lugar de textos que são facilmente esquecidos. Notícias são para informação; tópicos, para o conhecimento. Um tema pode ser tratado numa série de posts, sendo o assunto acompanhado em seus desdobramentos;
  • Não se preocupe com o aspecto popular do conteúdo. Isso faz com que muitos jornais ofereçam as mesmas histórias, contadas de forma similar. A micromídia se pauta pelo desenvolvimento de perspectivas, pontos de vistas distintos;
  • Tópicos de conversação não atrelados a periodicidades específicas (diário, semanal, mensal etc.). Você acompanha a informação durante o desenrolar dos acontecimentos;
  • Jornais perseguem o rigor formal (gramática, títulos e lides certeiros etc.) Na micromídia, há provocação -que pode ser um convite apenas para a mera polêmica, bem verdade-. Isso suscita a reflexão, nos desafia;
  • O que importa é o trabalho, não a tecnologia empregada. Blog, redes sociais… Mais relevante é o conceito, e não o aparato tecnológico.

Ademais, Haque aponta quatro modelos para micronichos:

  • Sentinela – Patrulha um determinado segmento. Esse jornalismo investigativo identifica mau comportamento, promessas não cumpridas etc.;
  • Crônica – Visão pessoal de um colunista. Podem desafiar o status quo, com um ponto de vista bem-humorado;
  • Informante – Notícia acompanhada de análise abalizada de algum profissional ligado a uma área específica;
  • Pioneirismo – Valoriza as novas ideias, conceitos, ângulos etc.

O conceito de nichos é atraente. A push media (quando procuramos notícias específicas), e não apenas a pull media (quando a notícia chega até você, mesmo sem buscar por ela), abre novas possibilidades.

Haque defende que antes de pensar um novo modelo para a comercialização da informação, o ideal seria reformular a elaboração das notícias.

Para o autor, o futuro das notícias aponta para os nichos. Isso porque eles possuem um modelo econômico melhor. Não têm de se preocupar, por exemplo, com funcionários, escritórios e custos diversos. A micromídia entrega grandes benefícios a um custo menor. Os leitores tem acesso a mais conteúdo e de forma mais rápida.


O jornalista Michael Massing também escreveu um bom texto sobre o assunto. Fala sobre  jornalismo de qualidade -opinativo e investigativo- feito na blogosfera. Esse trabalho amplia, em muitos casos, a cobertura de temas não abordados pela mídia tradicional. “O poder das instituições jornalísticas está se movendo para o jornalismo individual, com muitos profissionais conseguindo financiamento para a criação e manutenção de seus sites”, diz o texto.

(Vale a pena também conferir Cauda Longa, livro de Chris Anderson, autor influenciado por Haque)


Imagem via Flickr

 

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A fatura dos serviços “gratuitos” sempre chega

As mudanças anunciadas recentemente pelo Facebook demonstram, mais uma vez, como é frágil -e inconstante-  a relação entre usuários e os serviços digitais. Privacidade e segurança dos dados são as questões mais lembradas, mas não são os únicos tópicos delicados. As regras podem ser mudadas no meio da partida, o que deixa caminho livre para todo tipo de nova abordagem. Ou seja, a base da relação é incerta, por mais que os usuários não percebam.

O alcance orgânico de fan pages no Facebook, que já é limitado, tende a ser ainda menor com a nova alteração do algoritmo, que destacará conteúdo pessoal. Muitas empresas já se acostumaram a pagar para impulsionar o alcance dos posts. Há vantagens. O serviço não custa caro e é possível definir vários critérios do público-alvo que se busca atingir. Com isso, é possível ir além da base que de fato segue o perfil. Outra opção é participar de grupos, um conteúdo que, curiosamente, o Facebook divulga gratuitamente, mesmo para os integrantes menos assíduos.

Além de pagar, resta aos descontentes migrar os dados para outro serviço (alternativa nem sempre presente) ou apagar sua conta. Em todo caso, ir para outro destino não é atraente. O vínculo criado com o espaço original perdura. A audiência e os sites de busca ainda apontam para o endereço primário.

Sabendo desse laço, as plataformas digitais passam a cobrar (algumas adotam valores elevados). Trata-se de uma mudança de rota. Muitas dessas ferramentas construíram sua popularidade alardeando a gratuidade do serviço.

Mesmo que a mudança não gere cobrança, os descontentamentos podem ser enormes. Funciona como um relacionamento ruim: você vai ficando porque soa mais cômodo.

É por isso que recomendo a utilização de domínios próprios (seunome.com). São espaços que permitem maior controle. Está tendo problemas com o provedor atual? Parta para outro. Além disso, sempre é possível alavancar a audiência através do Google, seja através de anúncios ou da adoção da tecnologia AMP (Accelerated Mobile Pages), que permite carregar páginas com mais eficiência.

Já estou na rede há um bom tempo. Já vi muito trabalho bacana desaparecer junto com o Geocities, Tripop, Orkut, Ning, MySpace… Ou seja, o serviço que utiliza pode ser descontinuado, perder popularidade, ser vendido para outra empresa… Por isso, se você largou seu site para fugir com as redes sociais do momento… No caso de produtores de conteúdo, o ideal é utilizar espaços múltiplos, mas integrados, e não adotar um único destino (que não é seu, de fato).

Facebook alcança quase 2 bilhões de usuários

1,86 bilhão de pessoas estão conectadas ao Facebook. A maioria delas (94%) acessa a rede social através de celulares e tablets. Por isso, os relatórios do Facebook deixarão de dividir acessos móveis dos realizados através de computadores.

Para continuar sua rota de crescimento, o Facebook investirá ainda mais em vídeos. Até mesmo um concorrente ao Netflix estaria nos planos.

Vida móvel

“[…] o uso da internet móvel é muito diferente daquele ao qual estávamos acostumados, e que se resumia a uma única e longa sessão de navegação. Hoje o comportamento do consumidor pode ser mais bem descrito como uma sucessão de “micromomentos”, aquelas interações fragmentadas que acontecem ao longo do nosso dia — uma espiadinha na fila do banco, outra na sala de espera do consultório, ou no ônibus, no táxi, na sala de cinema enquanto o filme não começa… enfim, naqueles espaços antes em branco que aprendemos a preencher com os nossos gadgets. Nossos celulares nos acompanham por toda a parte, e olhamos para eles mais de 150 vezes por dia.”

– Cora Ronai, em ótimo texto que traz inúmeros dados sobre a relação dos brasileiros com celulares.

Instant Articles

Vídeo

Belo vídeo de apresentação do Instant Articles. Os recursos impressionam, como evidencia o trabalho realizado pelo NY Times sobre a ginasta olímpica Laís Souza (com direito a versão em português).

Se alguns produtores de conteúdo estão ansiosos para também testar o recurso, outros questionam porque essas empresas optaram por esse caminho. O Nieman Journalism Lab indaga: foi uma jogada inteligente em sintonia com os atuais hábitos de consumo da informação ou uma rendição?