“A experiência fora do alcance do relato”

Para um cronista de meio século atrás, digamos, o maior temor era a falta de assunto. Hoje é o contrário. […] Não que o mundo seja mais movimentado hoje. O que aumentou foram os veículos para que corram versões dos fatos. O modernismo errou ao decretar a morte da narrativa. Idem quem segue falando da morte da ficção. Pois o que mais há agora são narrativas ficcionais: o tipo de relato sobre nós mesmos, mediado pela idealização –tudo falso, portanto– que fazemos de nossa inteligência, cultura, humor e experiência social.

[…] Seria um bom final para este longo 2013: um pouco de vazio e tédio em vez do fetiche do registro e do movimento. Uma paisagem à beira da praia sem o filtro de um aplicativo. Nenhuma hashtag comentando o desempenho sexual de ninguém. A experiência fora do alcance do relato, a vida que não precisa ser classificada e explicada nos limites –sempre mais estreitos– da linguagem.

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