“A experiência fora do alcance do relato”

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Para um cronista de meio século atrás, digamos, o maior temor era a falta de assunto. Hoje é o contrário. […] Não que o mundo seja mais movimentado hoje. O que aumentou foram os veículos para que corram versões dos fatos. O modernismo errou ao decretar a morte da narrativa. Idem quem segue falando da morte da ficção. Pois o que mais há agora são narrativas ficcionais: o tipo de relato sobre nós mesmos, mediado pela idealização –tudo falso, portanto– que fazemos de nossa inteligência, cultura, humor e experiência social.

[…] Seria um bom final para este longo 2013: um pouco de vazio e tédio em vez do fetiche do registro e do movimento. Uma paisagem à beira da praia sem o filtro de um aplicativo. Nenhuma hashtag comentando o desempenho sexual de ninguém. A experiência fora do alcance do relato, a vida que não precisa ser classificada e explicada nos limites –sempre mais estreitos– da linguagem.

FestAruanda 2013

Vídeo

Hoje chega ao fim o FestAruanda 2013. Foi bacana participar mais uma vez da seleção dos curtas. Muitos filmes não podem ser assistidos online. São produções recentes, ainda em circulação nos festivais (não raro, tais eventos pedem ineditismo em relação a outras plataformas).

Todavia… Como no ano passado não rolou festival, decidimos resgatar alguns títulos de safras anteriores. Dique (vídeo acima) e Linear são ótimos exemplos. Ambos disponíveis na rede.

O desafio de estar presente

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Muitas vezes a necessidade de estar em companhia decorre de precisarmos de alguém para afirmar nossa identidade. Damos mais importância ao que o outro vai dizer do que àquilo que nós mesmos pensamos. A pessoa coloca um post no Facebook ou uma foto no Instagram e fica na expectativa de quantos vão gostar e fazer comentários. O que é isso? Uma necessidade de reconhecimento. O problema com essas tecnologias é que a gente se conecta com o mundo e se desconecta de nós mesmos, porque a mente está sempre em busca da opinião do outro. Isso aumenta a dificuldade de estar presente, no momento presente, no lugar onde eu estou.

[…] O importante não é estar sozinho ou com alguém. Quando conseguimos ficar em equilíbrio com nós mesmos, estamos bem – não importa se estamos sós ou com companhia. Por isso, convido cada um a observar a si mesmo e perguntar: eu tenho dificuldade de ficar sozinho? Se sim, que tal dedicar um pouco de tempo para ficar só, sem medo? Estar sempre em companhia muitas vezes acaba sendo apenas uma forma de fugir de si mesmo.

Lama Michel Rinpoche, mestre budista da tradição tibetana. Um dos ouvidos do especial da Trip sobre ficar só.

Karma

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Temos aceitado que certas instituições nos espiem, fotografem e nos gravem na rua, mas desconfiamos de nossos semelhantes. O simples olhar de um desconhecido por mais de dois segundos pode ser muito incômodo […] Essa desconfiança é o que nos leva a estar mais confortáveis dentro dos nossos carros.

Óscar Monzón, fotógrafo que lançou uma série sobre como as pessoas se portam em seus automóveis (Karma). Vida íntima, também pública.

Utopia sem fronteiras

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Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Trecho do belo discurso que o presidente uruguaio, José Mujica na ONU, fez na Assembleia Geral da ONU.

Haters Gonna Hate

“A internet é libertária, democrática, mas também faz você entregar sua privacidade e se relacionar com corporações como se fossem Deus ou a natureza. Elas dizem: “Você não precisa pagar nada”. E você se entrega acriticamente, porque a ideia de não fazer esforço é sedutora.
E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.”

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“Talvez [a internet] tenha acirrado algo que sempre existiu em potencial. Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato.
Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet.”

Bernardo Carvalho,  em entrevista à Folha. O autor comenta temas correlatos ao seu novo romance, “Reprodução”.

O assunto também é abordado em outro título, “Viral Hate: Containing its Spread on the Internet” (“Ódio Viral: Contendo sua Dispersão na Internet”). Nele, Abraham Foxman e Christopher Wolf questionam se, em nome da liberdade de expressão, estamos propiciando o discurso do ódio.

Inveja como regulador social

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Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.

O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.